Drácula: o homem, o livro e os filmes

Um dos personagens mais famosos da literatura e do cinema, o amedrontador Conde Drácula se apresenta com diferentes faces desde o surgimento do seu mito. Em uma visão geral, destacam-se 3 Dráculas: o real, voivoda (príncipe) da Valáquia; o literário, criado por Bram Stoker, misturando a história do príncipe com um conto vampirístico; e o mais popular de todos, o Drácula da cultura pop. Vamos falar sobre todos eles e como essa imagem foi formada com o passar das décadas.

Vlad Tepes: o verdadeiro Drácula?

Vlad Tepes é sem dúvida nenhuma a principal inspiração para a criação do nome Drácula. Seu pai, também voivoda, participava da Ordem do Dragão, deixando como uma das heranças o sobrenome Draculea (filho do dragão). Historiadores divergem, tendo em vista que Dracul pode significar tanto dragão quanto diabo (em romeno).

Pintura de Vlad Tepes.

Vlad Draculea (Dracul) acabou ganhando um apelido muito peculiar a sua personalidade. Durante a juventude, ele viu seu pai ser traído após tentativa de acordo com os turcos. Passando muitos anos como prisioneiro, Vlad acabou criando um espírito de vingança intenso.

Após a morte de seu pai, foi libertado e lutou até conseguir reassumir o trono. Durante seu governo, foi conhecido por práticas extremas, sendo a principal delas o empalamento, uma execução em que seus inimigos eram atravessados por estacas. O apelido de Tepes tem o significado de Empalador, surgindo assim o Vlad Tepes (Vlad, O Empalador).

Gutenberg x Drácula

Você já deve ter lido ou ouvido falar sobre Johannes Gutenberg, inventor das prensas móveis, equipamentos que permitiam cópias rápidas (para a época) de livros e panfletos. Indiretamente, Gutenberg influenciou (e muito!) na criação do mito sobre Drácula.

Católico ferrenho, Vlad Tepes tinha muitos aliados na sua região, a Valáquia, além de contar com o apoio de outras regiões na luta contra os Otomanos (turcos). No entanto, o apoio germânico para Dan III, que pretendia assumir o trono da Valáquia, fez com que O Empalador atacasse vilas e matasse aliados germânicos. Sem poder de enfrentar o Voivoda, eles utilizaram uma tecnologia praticamente exclusiva: a prensa.

Muitos banners sobre a crueldade de Vlad Dracul e seus métodos de tortura foram produzidos. Para esse ataque “intelectual”, foram utilizados fatos e também invenções. Não é possível precisar exatamente o que era verdade e o que eram invenções dos germânicos. Entre as acusações, estão o hábito de beber sangue dos inimigos, algo nunca comprovado.

Pintura alemã de 1499, mostrando Vlad Tepes em refeição enquanto “admirava” sua matança.

No entanto, essa tática acabou não funcionando (a curto prazo). Os panfletos foram espalhados por toda a Europa, sendo armazenados e expostos muitos anos após a morte de Vlad Tepes. Os germânicos provavelmente não tinha a intenção de criar um mito moderno, mas ajudaram nessa divulgação.

Vlad Tepes cartaz alemanha
Um os cartazes sobre Vlad Tepes produzido pelos alemães.

O que iniciou a queda de Vlad Tepes foi uma carta falsa, também atribuída aos germânicos, em que simulavam uma aliança do Voivoda com o sultão Mehmed II. A carta falsa foi enviada para o rei húngaro Matias Corvino, um dos aliados de Dracul. Mesmo após essa difamação e o começo da queda do governo Tepes, o Voivoda ainda conseguiu provar a sua inocência e lutou até o último dia para reconquistar seu reino.

O brasileiro Arturo Branco fez um dos melhores livros sobre o assunto. “As Origens de Drácula – O homem, o vampiro, o mito” é uma ótima opção para quem deseja conhecer o verdadeiro Vlad Tepes. Branco conduziu seu estudo em parceria com a Universitatea Din Craiova, viajando pelas regiões onde o verdadeiro Drácula viveu e em que muitos documentos são conservados.

Idolatrado na Romênia, Vlad Tepes tem até estátua.

O Drácula de Bram Stoker

E como essa impressionante história (apresentada de maneira muito resumida aqui) influenciou o autor Bram Stoker. A resposta é menos impressionante em relação a expectativa criada pela pergunta. O autor irlandês não estudou a fundo a trajetória de Vlad Tepes e nem mesmo se inspirou no Voivoda para escrever seu livro.

Bram Stoker, autor do livro.

As histórias de vampiros são apresentadas, das mais variadas formas, desde os primeiros séculos. Contadas de geração em geração e registradas em figuras e livros, esse mito acabou se fundindo com Vlad Tepes, principalmente pelos banners germânicos.

“Não podemos acusar Stoker de ter sido descuidado quanto a seu personagem, visto que ele já possuía a obra pronta quando adicionou o nome e a identidade de Vlad a seu vampiro. As fontes nas quais Stoker pesquisou também não eram minimamente esclarecedoras, uma vez que fragmentos de um impresso do século XV e um bestiário escrito por um ministro protestante no século XIX podem ser tão confusos quanto a história que o Conde Drácula conta a Jonathan Harker a respeito de seus antepassados”, explica Arturo Branco em seu livro.

No livro, Stoker apresenta Jonathan Harker, que viaja até a mansão de Conde Drácula para finalizar a venda de uma propriedade na Inglaterra. O conde apresentado é muito diferente do conhecido pela maioria das pessoas. Drácula era velho, com pele pálida, longa barba e cabelo. Uma figura fria e de fala calculista.

Nas primeiras conversas no castelo, como citado por Branco, o conde comenta sobre a história de sua família, havendo algumas referências reais ao período em que Vlad Tepes viveu, porém com erros históricos ou apenas pela falta de fontes para Stoker, que deve ter tido acesso a fragmentos e completado ficcionalmente as lacunas.

Drácula, o personagem das ausências?

Livro de Arturo Branco é um prato cheio para os fãs de Drácula.

A maneira com que o conde é apresentado no livro é muito diferente em relação a abordagem de TODOS os filmes. Drácula recepciona, conversa e espanta Jonathan Harker no início do livro. Após isso, passa a assustar mais pela possibilidade de sua presença e a incerteza sobre quando atacará. No seu contato com Lucy, em praticamente nenhum momento é exposto. Drácula passa boa parte do livro sem ter nenhum diálogo.

Nos filmes apresentado muitas vezes como um galã, encantador e de olhar penetrante, o Drácula de Bram Stoker é um tanto quanto diferente. Em nenhum momento ele consegue conquistar suas vítimas. Ninguém aceita sua presença sem antes relutar. O Drácula de Bram Stoker é realmente uma figura repugnante.

O Drácula do cinema

Para fazer essa análise, é importante deixar claro que nenhuma vez a história de Bram Stoker foi apresentada de forma próxima a original. Alguns filmes usam boa parte dos elementos, como o próprio Dracula de Bram Stoker, dirigido pelo genial Francis Ford Coppola, porém fazem adaptações e alterações que provavelmente fizeram Stoker revirar no túmulo.

Com o passar do tempo, os personagens acabaram em uma verdadeira prostituição de personalidade. Lucy e Mina, grandes amigas no livro de Stoker, já apareceram como irmãs e cunhadas em diversos filmes. Jonathan Harker, um dos personagens centrais do autor irlandês, é até mesmo retirado do roteiro de alguns filmes, enquanto sua noiva, Mina, uma das personalidades mais minimamente trabalhadas por Stoker, já foi utilizada de maneira inversa com Lucy, como amante de Drácula ou como mera figurante.

Essas não são propriamente falhas dos filmes. Literatura e cinema são expressões diferentes. O exemplo clássico de O Iluminado, em que Stephen King odiou o filme de Kubrick, que acabou como um dos maiores expoentes do cinema, deixa claro de que nem sempre essas duas expressões trabalham alinhadas. Alguns filmes se perdem nestas mudanças, não pela decisão de alterar e sim pela forma com que fazem isso.

Em nossa lista, destacamos alguns filmes que são marcantes para a história do Drácula, além de roteiros que tentaram se aproximar da história de Stoker.

Filmes do Drácula

Separamos alguns filmes importantes que adaptam a história de Bram Stoker. Produções que apenas utilizam o personagem em outros contextos, não foram consideradas.

Nosferatu – 1922

Nosferatu, Eine Symphonie des Grauens ou apenas Nosferatu, como ficou conhecido no Brasil, é um filme alemão de 1922, dirigido pelo ícone do expressionismo, F.W. Murnau. É considerada a primeira adaptação cinematográfica do livro de Bram Stoker, porém com alterações em todos os nomes e locais pela falta de autorização da viúva de Stoker, que não concordou com a adaptação e após o lançamento, facilmente tirou o filme de circulação por infração nos direitos autorais.

No livro, Nosferatu é o nome que o Dr. Abraham Van Helsing dá para os vampiros europeus, em referência a como os povos do velho continente chamam essas criaturas.

Nosferatu 1922Com baixo orçamento, Murnau criou um filme que esteticamente é reconhecido até hoje como um dos mais importantes da fase áurea das produções alemãs. Mesmo com Drácula se transformando em Conde Orlok e seu castelo posicionado nos Montes Cárpatos, o roteiro segue muitos elementos apresentados por Stoker.

Dividido em 5 atos, o filme, principalmente no começo, reproduz fielmente muitas das melhores cenas descritas detalhadamente por Bram Stoker. A figura do Drácula não foi romantizada como na maioria dos filmes. Uma criatura sombria, pálida e amedrontadora é apresentada, sendo mais um elemento próximo ao livro.

No final, muitos trechos do livro são eliminados, até pelo fato de ser um filme de apenas 94 minutos. O desfecho é alterado, porém nada que tire este filme da lista dos mais importantes.

Como adaptação, se distancia em muitos pontos do livro, porém pode ser considerado um filme até certo ponto fiel nos alicerces mais trabalhados por Stoker em sua história, algo que não aconteceu com o próximo filme da lista.

Drácula – 1931

O Drácula comercial da Universal Studios surge a partir da obra de Tod Browning. A adaptação não é direta do livro, passando por uma peça de teatro. Esse fator já deixa claro que não vemos algo próximo do livro (não que isso seja um problema para o filme). A escolha do protagonista é precisa. Bela Lugosi dá expressão e praticamente cria uma forma de expressão para o Drácula. Durante as filmagens, profissionais envolvidos afirmam que o ator até mesmo dormia em um caixão para se ambientar a realidade de Drácula.

Os personagens são claramente alterados. Tanto os nomes quanto as funções de cada um. Pela primeira veze no cinema, o vilão é romantizado. Em paralelo aos sustos, os closes em Lugosi encantavam as garotas. A longa capa preta, a elegância e outros elementos posicionam esse como o primeiro Drácula “comercial” do cinema. Provavelmente, a partir deste filme, a cultura pop do vampiro foi difundida e um modelo criado.

O Vampiro da Noite – 1958

São 27 anos entre o Drácula e Browning e o de Terence Fisher. Neste período, outros filmes foram feitos, até mesmo sequências diretas em relação ao de 1931. O destaque para o Drácula de 1958 é o início do domínio inglês no cinema de terror. Enquanto os norte-americanos mostravam um melhor desempenho nos suspenses, principalmente com produções de Alfred Hitchcock, que já havia migrado para Hollywood, a Hammer Film Produtcions investia num modelo diferente.

O diretor escolhido para O Vampiro da Noite, Terence Fisher, bebia muito na fonte dos produtores da década de 30. Entre suas direções, estão trabalhos relacionados ao Frankenstein e A Múmia. Comandando Peter Cushing e Christopher Lee, ele ajuda a criar a atmosfera buscada pelo estúdio inglês.

Trata-se de um filme não tão misterioso, porém com muito mais sangue. Numa balança, ele estaria mais próximo do trash do que um terror convencional, mantendo as devidas proporções.

A adaptação não é nem próxima da história original de Bram Stoker. Trata-se de uma reorganização dos primeiros filmes do Drácula. Para o desenvolvimento deste roteiro, não seria nem mesmo necessário ler o livro de Bram Stoker, algo que, com certeza, os roteiristas devem ter feito.

Diferente de Lugosi, Christopher Lee faz um vilão mais clássico. Um Drácula sanguinário, perseguidor e implacável. Uma atuação memorável e que eternizou sua imagem na memória de muitas crianças das gerações seguintes. A dupla, mesmo que inimigos na trama, com Peter Cushing, é sensacional.

Um filme muito importante, mesmo não sendo próximo do livro de Stoker.

Conde Drácula – 1970

conde dracula 1970 jess franco
Capa do filme de Jess Franco.

Não fique confuso, esse filme tem Christopher Lee, porém não é uma produção da Hammer. Também é um filme europeu, porém feito na Espanha, Alemanha, Italia e Liechtenstein. A confusão pode ocorrer por Lee ter atuado em outros filmes do Drácula lançados no mesmo ano.

De 1958, sua aparição em O Vampiro da Noite, para este filme, foram 12 anos. O ator já estava um pouco cansado de fazer praticamente o mesmo papel. Atuar fora da Hammer, era outro motivo que causava preocupação.

O diretor de Conde Drácula, Jess Franco, conseguiu convencer o ator, prometendo queseria uma adaptação muito próxima do que foi escrito por Bram Stoker.

E o resultado? Novamente, um filme totalmente modificado em relação ao livro. Vale o destaque para este, pela apresentação do Drácula. Um dos pontos positivos é a caracterização de Christopher Lee, mais velho, com bigode e uma aparência mais próxima pela descrita por Stoker.

Um Lee mais velho e um Drácula diferente.

Drácula BBC – 1977

Um filme que não chegou ao sucesso mundial. Produzido pela rede inglesa de televisão, BBC, teve direção Drácula BBC 1977de Philip Saville. A história apresentada é muito mais densa, retirando muitas cenas de maneira quase que intacta do livro. Assim como todos os outros filmes, apresentou mudanças, porém não tão expressivas.

Trata-se de um filme simples, de resultado razoável, mas que no entanto é uma divertida experiência para quem leu o livro e quer conhecer a fundo a história de Drácula no cinema.

Dracula – 1979

Filme dirigido por John Badham, com canção original de John Williams e Frank Langella como Drácula. Alguns fãs consideram esse um dos mais originais desde Nosferatu e Drácula (1931). Curiosamente foi lançado no mesmo ano do remake de Nosferatu, também na lista.

As mudanças ficam evidente desde o começo. A inspiração claramente foi na peça de teatro que inspirou também o filme de 1931. As locações foram muito bem escolhidas, numa montagem eduardiana, remetendo ao período do rei Eduardo VII na Inglaterra.

A imagem de Drácula também é apresentada de forma diferente. Frank Langella é ousado em mostrar um Drácula diferente, sem o penteado clássico e as falas pragmáticas dos outros protagonistas.

Drácula 1979 Frank Langella
Frank Langella como Drácula.

Nosferatu – 1979

Produzido na Alemanha (ocidental, ainda dividida) e França, este remake do filme de Murnau dá uma nova cara (muito digna) para o clássico da década de 20. Werner Herzog entra de cabeça no projeto, escrevendo o roteiro e assumindo a direção.

Mesmo com a homenagem, não trata-se propriamente de um remake. O nome Drácula é utilizado, mesmo que divida a atenção com as denominações de Nosferatu, muito presentes no diário de Jonathan Harker. A história é diferente do livro e também tem mudanças em relação ao filme pioneiro.

Klaus Kinski, em difícil posição, tem um bom desempenho como Drácula.

nosferatu 1979 Klaus Kinski
O Nosferatu de Klaus Kinski.

Dracula de Bram Stoker – 1992

Por fim, chegamos no filme mais intrigante desta lista. Mesmo com esse título, não vemos exatamente o Drácula de Bram Stoker.

É uma adaptação que traz muitos elementos do livro, alguns, até mesmo, nunca vistos no cinema. O roteiro de Jim Hart é muito certeiro em algumas incorporações, porém, também busca referências na história de Vlad Tepes. A fonte de Bram Stoker também serve para o filme, que mistura os dois e ainda acrescenta alguns pontos de ligação.

O catolicismo de Vlad Tepes serve como gancho para o surgimento da maldição de Drácula neste filme.

A direção de Coppola é genial, contando com ótimas atuações de Gary Oldman, Winona Ryder, Keanu Reeves e Anthony Hopkins.

Todas as mudanças são muito bem executadas e fazem do filme uma leitura muito interessante da história. O que costuma irritar os fãs do livro, é o romance entre Mina e o Conde Drácula. Toda a pureza da personagem e a resistência narrada por Stoker, que tentava sempre mostrar a esposa de Jonathan como dedicada para o matrimônio e um desejo utópico para Drácula, é gradativamente desconstruída no filme.

As análises dos filmes mudam conforme sua visão. Se analisarmos isoladamente como filmes, a nota será uma, se pensarmos em comparação com o livro, isso muda totalmente.

Sobre Leonardo Caprara

Idealizador e fundador do site, tem profunda paixão pela música e pelo cinema, desbravando os mais diferentes sub-gêneros dentro destes dois maravilhosos nichos e procurando levar o melhor conteúdo para os fiéis leitores do Música e Cinema!

Veja Também!

Crítica | Mãe! – É bom? Devo assistir?

Talvez “Mãe!” seja o filme mais controverso de 2017. Tanto os críticos quanto o público, …

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *