Rick Chain: versatilidade lusitana

Ricardo Corrêa, ou mais conhecido por Rick Chain, certamente é um dos músicos mais prolíficos e atuantes da cena Metal de Portugal. Instrumentista competente, compositor e também produtor, o cara mantém na ativa algumas das melhores bandas do underground lusitano, entre elas o Grindcore alucinante do Besta, o Crust metálico do We Are the Damned, e a mais recente, a banda que leva seu nome, que pratica uma espécie de Metal/Rock/alternativo indie. Bandas completamente diferentes na sonoridade, mas executadas e conduzidas com igual paixão, conseguindo agradar uma grande variedade de fãs.

            Resolvemos bater um papo com Rick pra tentarmos entender como ele consegue manter esse ritmo frenético de trabalho. Sempre muito solícito e simpático, ele nos conta algumas curiosidades sobre seus projetos, novidades, planos para o futuro, enfim, um apanhado geral de sua carreira. Fala, Rick. É com você!

Entrevista Rick Chain (Besta, We Are the Damned, Rick Chain)

Música e Cinema: Satisfação enorme em falar contigo, Rick. Obrigado por nos conceder a entrevista. Pra iniciarmos nossa conversa, gostaria de saber como se deu o seu primeiro contato com a música? Foi influência de alguém? Como isso o chamou a atenção?

Rick Chain: O primeiro contato com música foi no meio dos anos 80 sem dúvida. Desde pequeno que sonhava em ser baterista! Os meus pais ouviam muita musica dos anos 80, como Foreigner, Marillion, Scorpions, Tears For Fears, Genesis, Rod Stewart e por ai fora. Desde então comecei a interessar-me por musica, depois mais tarde, no final dos 80, na escola e através de alguns colegas pelo Heavy Metal e pelo Hard Rock, que me introduziu ao Iron Maiden, Thin Lizzy e Helloween.

Música e Cinema: E mediante esse primeiro contato você já se decidiu por qual caminho seguir?

Rick Chain: Sim, basicamente o Heavy Metal me conquistou totalmente, mas sempre tive uma sensibilidade para outros estilos, mas nessa altura estava focado no Heavy Metal. Era o que mais me empolgava.

Capa de "Doomvirate", novo disco do We Are the Damned.
Capa de “Doomvirate”, novo disco do We Are the Damned.

Música e Cinema: Rick, você é um músico muito talentoso e também bastante atuante na cena Metal de Portugal, que vem se destacando como uma das melhores do mundo. Como você avalia o crescimento e a solidificação da cena underground de Portugal, já que você é parte importante dela?

Rick Chain: Especialmente nos últimos 10 anos penso que houve uma evolução bastante significativa. Bandas de vários estilos emergiram, talentosas e já com um sentido musical bastante maduro, e evidentemente que isso contribuiu para esse desenvolvimento dos últimos 10 anos em Portugal, se bem que em outros estilos sempre tivemos bons músicos e bandas.

Música e Cinema: Atualmente, você vem trabalhando com três bandas de estilos completamente distintos, sendo o líder e fundador do Besta, do We Are the Damned e do Rick Chain. Todas estão na ativa e lançaram excelentes trabalhos neste ano. Como você consegue manter essa rotina de trabalho entre três bandas de estilos tão próprios. Como faz para compor em tantos estilos diferentes, sem uma influenciar no resultado da outra?

Rick Chain: Penso que ajuda bastante o fato de o núcleo das bandas todas se basearem em mim e no Paulinho (Paulo Lafaia) baterista de todas as minhas bandas. É uma equipe que foi se solidificando ao longo dos anos e já tocamos  juntos desde 1995. Estivemos por um tempo separados, entre 2000 e 2007, com projetos diferentes, mas retomamos a química para agora darmos vida a estes projetos. A composição é algo que já sabemos separar com naturalidade, vamos nos focando a medida que as oportunidades vão acontecendo sem “atropelar” as coisas.

Música e Cinema: No Besta você pratica um grindcore dos mais furiosos, muito veloz e agressivo. Seus últimos lançamentos com a banda foram o ep Herege (2013), onde você homenageia o grande cineasta brasileiro José Mojica Marins, o nosso querido Zé do Caixão, e o cd John Carpenter (2014), que presta um tributo a obra de um dos maiores cineastas do horror de todos os tempos: John Carpenter. Gostaria de saber qual a importância desses ícones do horror na carreira da banda e como eles exercem essa influência na sonoridade da banda?

We Are the Damned (foto de Pedro Almeida)
We Are the Damned (foto de Pedro Almeida)

Rick Chain: Em relação ao John Carpenter, há uma associação bastante política e social nos seus filmes, de maneira que quisemos aliar esses fatores à nossa música e ao nosso conceito na banda Besta, já que muitos dos tópicos da banda passam por política e sociedade. Do Zé Do Caixão usamos o seu imaginário de forma metafórica para o incluirmos na realidade da banda, desta forma prestamos o nosso tributo a duas figuras influentes na nossa música e na nossa filosofia. Somos fãs de ambos e foi com satisfação que o fizemos.

Música e Cinema: Já no We Are the Damned você emprega uma influência mais escandinava ao som, praticando uma mistura de Crust/D-Beat com Hardcore e até algo de Rock ‘n’ Roll. Um som mais comportado, porém ainda bastante violento. Doomvirate (2014), último álbum da banda, reflete bem isso. Do que se trata Doomvirate? Existe algum conceito por trás desse estranho título?

Rick Chain:Doomvirate foi um termo designado por mim e pelo Paulinho (Paulo Lafaia) baterista também no We Are The Damned, como o titulo do terceiro álbum Como a banda nasceu da união de nós dois, deriva da palavra “Duumvirate”, que é como a nossa visão do estado atual do mundo em geral, que em muitos casos é desastroso, ruinoso e pode estar a caminhar para um caminho sem regresso.

Música e Cinema: Você excursiona e toca ao vivo com todas as suas bandas. Já observou em qual delas está seu maior público? Qual delas tem maior receptividade?

Rick Chain: Para ser sincero nem estou bem atento a isso. No geral a receptividade tem sido positiva, há muitas pessoas que gostam e apóiam e há outras que naturalmente não, mas não estou muito ligado a isso. O importante mesmo é fazer as coisas acontecerem.

Música e Cinema: Sou fã do seu trabalho, principalmente no Besta e no We Are the Damned, porém eu tenha apreciado bastante a sua banda solo. Minha pergunta é a seguinte: após gravar com duas bandas tão extremas, você chegou com a banda Rick Chain e apresentou ao público Voyager, um excelente disco, muito bem composto e gravado, porém fugindo totalmente da proposta brutal de outrora, pois investe em um rock alternativo, pós-punk, um pouco de new metal, com muitas influências de outras sonoridades mais amenas. Qual o principal motivo para ter lançado um trabalho tão diferente das suas origens? Foi necessidade de explorar novas áreas da música, ou foi só por diversão mesmo?

Besta (foto de Pedro Almeida)
Besta (foto de Pedro Almeida)

Rick Chain: Foi um bocado de ambas. Depois de tantos anos tocando e fazendo música pesada, gostaria de tentar algo diferente, que fosse “beber” nas coisas que eu comecei a ouvir nos anos 80, e também com o que mais tarde comecei a adorar dos anos 70. Depois, naturalmente durante estas duas décadas como musico ativo, fui desenvolvendo o meu próprio estilo, e o álbum Voyager é como que um caldeirão de toda essa informação musical, e claro, diversão é essencial para tudo.

Música e Cinema: Aliás, você teve algum receio de que seu público do Besta e do We Are the Damned não curtissem esse lado mais experimental e até mesmo pop do Rick Chain? Isso chegou a preocupá-lo em algum momento?

Rick Chain: Não, claro que não. São coisas diferentes, e claro que há gente que vai gostar e outras que não, é normal isso, mas respondendo diretamente: não estou preocupado com isso nem com receio.

Música e Cinema: Justamente por tocar e compor em estilos tão diferentes, já deu pra perceber que você é um músico de grande talento, de imensa versatilidade. Você acha essa característica importante para os músicos em geral poderem sobreviver a esse mercado tão competitivo da música. Um músico versátil e eclético tem mais chances de se manter em evidência?

Rick Chain (foto de Claudia Teixeira)
Rick Chain (foto de Claudia Teixeira)

Rick Chain: O AC/DC nunca se desviou do seu caminho, nem o Slayer, por exemplo (risos). Creio que uma reinvenção dentro de sua própria banda é sempre positivo. No meu caso gosto de experimentar e desenvolver outras técnicas e explorar outros territórios, mas não creio que seja um fator determinante para se evidenciar, é mais uma questão aventureira.

Música e Cinema: Rick, após vários anos de carreira e gravando tantos discos diferentes, a paixão em compor e lançar continua a mesma do que antigamente? Quando você lançou Voyager, a empolgação e ansiedade foram a mesma de antes?

Rick Chain: O Voyager foi especialmente empolgante, é uma nova aventura, uma nova etapa, nos caminhos, mas claro que a chama continua acesa passados esses anos todos, e não pretendo abrandar a velocidade. Gosto de viver estes momentos musicais todos ao máximo.

Música e Cinema: Você já tocou por toda a Europa, incluindo festivais de renome como o Obscene Extreme na Rep. Tcheca, porém ainda não se apresentou no continente americano. Há planos de tocar por aqui em 2015? Me parece que com o Besta já tem algumas datas confirmadas, não?

Rick Chain: Toquei apenas uma vez nos Estados Unidos com uma banda que tive entre 2000 a 2007chamada Twentyinchburial. No Brasil há efetivamente planos em 2015 para ir até ai e mostrar a nossa música com Besta e o We Are The Damned, e é com satisfação, já que eu adoro o Brasil, adoro a música brasileira, e a cena Metal e Punk brasileira é das melhores.

Música e Cinema: Além de músico e compositor, você também é produtor. Você produz apenas seus próprios trabalhos ou produz outras bandas também?

Capa de "Herege", mini-álbum do Besta
Capa de “Herege”, mini-álbum do Besta

Rick Chain: Apenas as minhas bandas. Trabalhei este ano como uma espécie de produtor executivo numa compilação Luso-Brasileiro, chamada Decreto 3.927, lançada pela Raging Planet, e distribuída pela Black Embers aí do Brasil, que basicamente reúne bandas amigas de Portugal e Brasil, mas gostaria de um dia eventualmente poder produzir em conjunto com outras bandas, e isso não está totalmente fora possibilidade.

Música e Cinema: A temática abordada no Besta é mais o horror, embora compreenda também o aspecto social, enquanto no We Are the Damned está mais focada nos problemas sociais, políticos e religião. No Rick Chain, qual seria a principal fonte de inspiração para o conteúdo lírico?

Rick Chain: O conteúdo lírico de Voyager reflete todo o meu percurso na música e experiências de vida que tive, situações, lugares, amores e ódios, vida e morte. Daqui para a frente vamos ver o que fará sentido abordar.

Música e Cinema: Rick, gostaria de saber quais os planos para 2015? Só ta faltando um disco de fado, hein? (risos)

Rick Chain: Nunca diga nunca! (risos). Planos são o split do Besta com O Cúmplice, excelente banda amiga de São Paulo que eu gosto bastante e admiro, o disco novo do We Are The Damned, o EP novo do Rick Chain intitulado Good Girl On A Bad Night, que já está gravado e vai ser editado em abril de 2015, e o novo álbum do Sinistro que será editado também em 2015. Trata-se de uma banda ambiental/film soundtrack que também tenho com o Paulinho (Paulo Lafaia) baterista, e outros membros da banda Rick Chain.

Música e Cinema: Pra encerrar, poderia dizer quais suas cinco bandas e filmes favoritos?

Rick Chain: Bandas: Foreigner, Thin Lizzy, Slayer, Rush e Black Sabbath; filmes: 5 do Zé Do Caixão ou 5 do Carpenter. Adiciono ainda O Exorcista e o Eraserhead do David Lynch

Capa de "Voyager", álbum solo de Rick Chain
Capa de “Voyager”, álbum solo de Rick Chain

Música e Cinema: Muito obrigado pela entrevista, Rick. Desejo a você e a todas as suas bandas e projetos toda a sorte do mundo. Gostaria de deixar um recado aos leitores do Música e Cinema? O espaço é seu.

Rick Chain: Quero apenas desejar um grande 2015 para todos os meus amigos do Brasil, assim como para todos os cidadãos do mundo, e muito obrigado pelo apoio e por esta entrevista, Ricardo.

Contatos:

[email protected]

http://wearethedamnedofficial.bandcamp.com/

http://rickchainmusic.bandcamp.com/

http://besta.bandcamp.com/

https://www.facebook.com/rickchain

Sobre Ricardo Costa

Casado, 42 anos, médico veterinário. É fã de música desde a adolescência, principalmente dos subgêneros mais extremos do Metal. É fã também incondicional de cinema, principalmente de horror e ação. Seu principal hobby é pesquisar e conhecer bandas novas e filmes obscuros. Trará sempre novidades acerca de lançamentos, bem como artigos, matérias e entrevistas muito interessantes para os nossos leitores

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