Ratos de Porão: tradição hardcore sinistra

Convido o nobre leitor a raciocinar comigo: que outra banda poderia sobreviver por mais de trinta anos nesse mercado desfavorável da música de massa aqui no Brasil, e ainda soar relevante e com muita importância no underground nacional e também mundial? A resposta não poderia ser outra se não o Ratos de Porão. O quarteto paulistano ainda tem garra e combustível suficiente pra animar o mosh pit de muita gente. E como importância e relevância pouca é bobagem, acabam de lançar um novo trabalho, convenientemente intitulado de Século Sinistro. A maior banda do HC nacional mostra com este novo disco que ainda esta mais em forma que muita formação novata por aí, e que trinta anos de carreira não é pra qualquer um! Um álbum que serve como afirmação e consagração de alguém que ajudou a construir tudo o que vemos por aí hoje em dia em termos de música agressiva.

Boka (bateria), Gordo (vocal), Jão (guitarra) e Juninho (baixo)
Boka (bateria), Gordo (vocal), Jão (guitarra) e Juninho (baixo)

            Obviamente, ouvimos o novo disco e, chocados, o resenhamos para que o leitor tenha uma leve idéia da destruição que encontrará ao se deparar com ele. Com exclusividade aqui no Música e Cinema, Ratos de Porão, mais vivos e fortes do que nunca. Divirta-se!

R.D.P.: Século Sinistro (resenha)    

Longos oito anos se arrastaram até aqui (desde o penúltimo registro completo, Homem Inimigo do Homem), mas a longa espera foi compensada, pois Século Sinistro, mais novo trabalho do R.D.P., é de uma qualidade e urgência raramente vistas por aí. Um álbum explosivo do início ao fim, que demonstra que os mais de trinta anos de carreira só fizeram bem a esse pessoal. Esse disco funciona como um manifesto, um protesto da maioria inconformada com tanta patifaria praticada por esse governo corrupto, e que tem na banda uma espécie de porta-voz. Uma banda que nunca teve medo de expor a mais dura das verdades e sempre deu a cara a tapa por isso.

Capa de "Século Sinistro"
Capa de “Século Sinistro”

            João Gordo (vocal), Juninho (baixo), Boka (bateria) e Jão (guitarra) compõem a formação mais sólida e coesa da banda de todos os tempos. Acertaram a mão de jeito mesmo! Juninho, o último a ingressar no grupo, está muito mais entrosado, agitando e tocando como nunca. O garoto é de uma energia incrível! Boka, como sempre, debulha a bateria sem piedade da pobrezinha, num misto de técnica, precisão e punch; Jão apresenta o que é provavelmente seu melhor desempenho nas seis cordas de toda sua carreira. Riffs pesadíssimos e velozes que se intercalam com solos econômicos, mas muito bem feitos. Um trabalho de mestre, e o Gordo, bem…o Gordo é praticamente um poeta. Um Shakespeare do caos. Um cara que cria letras tão inteligentes, sinceras e realistas só pode ser chamado de gênio. O Ratos sempre abordou a realidade na sua mais dura forma em suas letras, mas aqui, além de reais, as letras são muito atuais, expondo da maneira mais autêntica todas as mazelas a que nós somos submetidos todos os dias. Quer um exemplo? Melhor, te dou vários: Conflito Violento narra essa atual onda de manifestações que estão ocorrendo por todo o país. Muito pesada, rápida e agressiva ao extremo; Sangue e Bunda relata, com bom humor, as “preferências” pouco ortodoxas do brasileiro, e ainda conta com a insólita participação do porco Atum no início da canção. O suíno mais Hardcore da pocilga! A faixa que nomeia o álbum é de uma brutalidade que é de impressionar. Em pouco menos de dois minutos, temos Gordo berrando igual um insano incessantemente, sendo seguido pela guitarra honesta e veloz de Jão. Não sei como o Boka não teve um colapso ao gravar essa faixa. Um baterista normal certamente já estaria em outro plano após tentar gravar isso aqui. Disparada, a melhor faixa do álbum! Jornada para o Inferno é um retrato fidedigno da situação precária das penitenciárias do Brasil, relatando o verdadeiro inferno por trás das grades. Brutal é pouco! Viciado Digital mostra a corrupção da humanidade pela alta tecnologia. Com uma crítica ácida e muito inteligente, relata a realidade do ser humano que sofre uma lavagem cerebral por conta das famigeradas redes sociais. Um processo de lobotomização real e irreversível, que só tende a piorar; aliás, o refrão da canção é uma das coisas mais sensacionais que já ouvi na vida: “viciado digital, conectado em tempo integral. Intimidade escancarada numa rede social. Roupa suja mal lavada no facebook é de doer. Twittando suicídio, no Instagram foto vai ter”. Fala se não é maravilhoso isso? Boiada pra Bandido mostra como é bom e conveniente ser bandido no Brasil por conta da frouxidão e fragilidade do sistema judiciário e seu código penal falido. Uma pancada Thrash/HC com temática das mais relevantes, com Gordo vociferando com todo ódio no coração. Outros destaques são Puta, Viagra e Corrupção e a sensacional versão de Progeria of Power do Anti-Cimex que, ao meu ver, ficou imensamente superior ao original; aliás, o álbum todo é um arroubo absurdo de talento e determinação de uma banda que ainda tem muito a oferecer ao underground. A grande sacada desse trabalho é a seguinte: o Ratos não tentou inventar a roda ou descobrir o fogo. Apenas utilizou-se do grande conhecimento e integridade forjados ao longo dos anos, plugou os instrumentos e mandou ver do jeito que tem que ser, sem frescuras desnecessárias; por isso, é uma verdadeira instituição do hardcore nacional que merece ser reverenciada por todos!

            Fechando o pacote com chave de ouro, temos uma produção excelente e uma arte gráfica que ilustra com perfeição todo o conceito do trabalho. Sempre pensei que o R.D.P., apesar da discografia repleta de obras essenciais, jamais conseguiria superar o maldito Brasil, mas com Século Sinistro creio que o posto está seriamente ameaçado. Vamos fazer assim: ambos merecem o ponto mais alto do pódio. Melhor disco nacional do ano disparado. Impossível de superar!

Nota: 10

  

Faixas:

 

  1. Conflito Violento
  2. Neocanibalismo
  3. Grande Bosta
  4. Sangue & Bunda
  5. Século Sinistro
  6. Jornada para o Inferno
  7. Prenúncio de Treta
  8. Stress Pós-Traumático
  9. Viciado Digital
  10. Boiado pra Bandido
  11. Progeria of Power ( Anti-Cimex)
  12. Puta, Viagra e Corrupção
  13. Pra Fazer Pobre Chorar

 

Formação:

 

  • Gordo (vocal)
  • Jão (guitarra)
  • Boka (bateria)
  • Juninho (baixo)

Contatos:

 https://www.facebook.com/RatosdePoraoOficial?fref=ts

 http://www.ratosdeporao.org/

 https://myspace.com/ratos

 [youtuber youtube=’http://www.youtube.com/watch?v=MbfCd8z6JY0′]

 

Sobre Ricardo Costa

Casado, 42 anos, médico veterinário. É fã de música desde a adolescência, principalmente dos subgêneros mais extremos do Metal. É fã também incondicional de cinema, principalmente de horror e ação. Seu principal hobby é pesquisar e conhecer bandas novas e filmes obscuros. Trará sempre novidades acerca de lançamentos, bem como artigos, matérias e entrevistas muito interessantes para os nossos leitores

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