Ratos de Porão: Disco novo, convicções antigas

A demora foi grande (oito anos). Os fãs já não se agüentavam mais, sedentos por um novo álbum de inéditas. Após muito trabalho, turnês extensas, dedicação, e um amor incondicional ao underground, eis que Século Sinistro acaba de ser concebido. A ansiedade e a espera parecem ter chegado ao fim, dando lugar a uma certeza: se este novo disco vai ser o melhor de sua prolífica carreira, ainda não podemos afirmar, mas certamente será mais um capítulo a ser incluído e admirado em sua gloriosa trajetória.

            E já que eu sou um desses fãs, prestes a enfartar de ansiedade, nada mais oportuno do que bater um papo com Maurício Alves, ou se preferir, Boka mesmo. O baterista da banda nos conta alguns detalhes sobre o novo álbum, bem como algumas curiosidades sobre o passado do grupo, suas expectativas, enfim, tudo e mais um pouco. O Música e Cinema traz, com exclusividade pra você, essa grande e esclarecedora entrevista. Com vocês, Boka! Ratos, ratos, ratos, ratos…

 Entrevista com Boka (R.D.P.)

Juninho (baixo), Jão (guitarra), Gordo (vocal) e Boka (bateria): R.D.P.
Juninho (baixo), Jão (guitarra), Gordo (vocal) e Boka (bateria): R.D.P.

Música e Cinema: São 30 anos de carreira, turnês mundiais que abrangeram vários países, uma formação sólida, reconhecimento e um novo disco pra coroar tudo isso. Sinceramente, você esperava que algum dia o R.D.P. fosse chegar tão longe?

Boka: Quando eu comecei a tocar no R.D.P. em 1991 eu sempre achei que existia um panorama favorável pra se fazer muitas coisas durante muito tempo. Eu nunca achei que pudesse fazer tanta coisa, mas sempre sonhei com isso.

Música e Cinema: O novo álbum, intitulado Século Sinistro, acaba de ser lançado e possui aquele padrão de qualidade inerente a tudo que o Ratos faz. Uma curiosidade acerca do nome: o que torna esse século tão sinistro assim? (risos)

Boka: Acho que a temática das letras fala de vários problemas e situações que sempre existiram, só que vão se agravando com o tempo e a perspectiva não é boa para uma mudança. Uma mistura de caos, violência e tecnologia.

Música e Cinema: Eu ainda não tive o prazer de ouvir o álbum inteiro, mas pelo pouco que já ouvi, me parece que vocês resgataram aquela sonoridade mais Crossover, presente noAnarkophobia, onde vocês uniram o punk/hc ao Metal, com composições que focam mais no peso do que na velocidade desenfreada. É correto afirmar isso?

Divulgando o novo trabalho, o aguardado "Século Sinistro"
Divulgando o novo trabalho, o aguardado “Século Sinistro”

Boka: Acredito que este disco vai soar particular como todos do R.D.P. sempre soam, aquele lance que quando as pessoas ouvem sabem que é o Ratos tocando, mas também sentem que está diferente de tudo que já fizemos. Com certeza todos os elementos clássicos do Hardcore, Crossover, Metal e Punk estão nestas músicas.

Música e Cinema: Em Século Sinistro, o R.D.P. resolveu inovar de vez e conta com a participação de alguém muito especial e original: um porco. Creio que na história da música pesada isso nunca aconteceu anteriormente. Como chegaram a ele? Em qual música ele participa?

Boka: Essas coisas somente o Gordo pode explicar (risos).

Música e Cinema: No final do ano de 2013, no Open the Road Fest, onde o R.D.P. tocou com o D.R.I., Benediction e Violator, vocês apresentaram ao público uma nova canção presente no novo disco, chamada Confronto Violento. Esta música certamente retrata essa onda de protestos que tomou o Brasil desde o meio do ano passado. A princípio, as manifestações pareciam ser legítimas e tinham uma causa concreta, porém, passado algum tempo, tudo virou motivo de protesto, desde o aumento das tarifas do transporte público, até como boicote contra a copa do mundo. Qual a sua opinião a respeito dessas manifestações? Acha que são realmente focadas em algo sólido, ou é apenas um mero pretexto pra instaurar o caos, como muitos vêm fazendo por aí?

Uma explosão de fúria ao vivo!
Uma explosão de fúria ao vivo!

Boka: Acho que um ato público é parte de qualquer luta. Deve ser feito sempre que se achar necessário ou pertinente; agora, quando se começa a fazer ato público fora deste contexto eu não sou muito a favor, porque abre precedente para que forças reacionárias, fascistas e conservadoras comecem a tentar ocupar espaços que já perderam há décadas. O que eu achei bom deste período foi que muita gente nunca tinha participado de um ato público e talvez tenha se dado conta de que pode fazê-lo, que deve fazê-lo, para tornar certas lutas visíveis, para dar voz a todos estes anseios da sociedade e aos movimentos organizados.

Música e Cinema: Oito anos se passaram desde o lançamento de Homem Inimigo do Homem para o Século Sinistro. Nesse meio tempo, vocês lançaram dois dvds (Guidable eAo Vivo no Circo Voador), um split com o Looking for an Answer, e uma coletânea chamada No Money, No English. Certamente vocês não pararam, mas os fãs estavam sedentos por um novo álbum completo de inéditas. Após a conclusão do trabalho, qual sua opinião a respeito dele? Atendeu as expectativas do grupo?

Boka:Eu acho que este disco vai presentear todos os nossos fãs de maneira brilhante. Acredito que este é o disco que o fã de R.D.P. de longa data queria ouvir. Minha expectativa é que figure como um dos grandes momentos da banda em sua discografia.

Música e Cinema: Você já está na banda há 22 anos, entrando na época do disco ao vivoR.D.P. vivo. Na minha opinião, com a sua entrada, o Ratos ganhou muito em agressividade, dinamismo e técnica, pois Spaguetti (baterista anterior), apesar de um bom baterista para o estilo, não era exatamente virtuoso. Você conseguiu imprimir a sua marca no som da banda. Sendo assim, gostaria de saber como você avalia a sua trajetória na banda?

Old School: R.D.P. na época do "Anarkophobia", ainda com Jabá (baixo) e Spaguetti (bateria)
Old School: R.D.P. na época do “Anarkophobia”, ainda com Jabá (baixo) e Spaguetti (bateria)

Boka: Eu acho que você tem razão em dizer que a banda ficou mais agressiva e com outra pegada. Creio que evoluí muito durante este tempo e contribuí para que o som tivesse uma marca registrada, então concluo que tanto eu como músico, quanto a banda em si evolui. Isto se mistura e torna-se algo homogêneo.

Música e Cinema: O R.D.P. está sempre em evidência, graças ao seu vocalista João Gordo, que aparece em tudo quanto é programa de tv. Até no programa do Ronnie Von ele já foi (risos), além de ter apresentando alguns programas na extinta MTV, e de ter feito parte do Legendários (programa de entretenimento apresentado por Marcos Mion na Record). De certa forma, isso é benéfico pra banda, pois acaba sendo uma ótima publicidade; por outro lado, muitos fãs mais radicais acham que essa superexposição denigre a imagem do grupo, sendo prejudicial a sua reputação underground. Como o Ratos é de origem fundamentalmente punk, você acredita que essa exposição seja benéfica?

Boka: Acho que esta discussão é datada porque esse conflito ocorreu justamente quando o Gordo começou a trabalhar em definitivo na MTV e tornou-se uma pessoa muito popular. Com o tempo vimos que uma coisa não influencia diretamente a outra. O Gordo simplesmente executa este trabalho como outro qualquer; a diferença é que é um trabalho público. Sendo assim, as pessoas podem dizer o que bem entenderem a respeito disso. O Ratos continua a fazer sua música e seguir sua trajetória.

Música e Cinema: O dvd Guidable: a Verdadeira História do Ratos de Porão(documentário lançado em 2010) narra com riqueza de detalhes algumas das inúmeras situações insólitas pelas quais a banda já passou nessas três décadas de existência. Tenho o dvd e já assisti algumas vezes, e todas as vezes que eu assisto, eu rio muito com alguns desses relatos, pois vocês conseguem transpor obstáculos dos mais cavernosos sempre com muito bom humor, tirando sarro das situações mais críticas. Pra você, esse é o segredo de se manterem na ativa até hoje? A união, amizade e o bom humor conseguem resolver todas as situações?

Boka:Seguramente!

Música e Cinema: Ainda sobre Guidable, o documentário é uma verdadeira aula sobre o underground nacional, pois conta com a participação de muitos músicos de outras bandas de suma importância para o movimento, como o Cólera, o Inocentes, Sepultura, entre outros. Redson (falecido vocalista do Cólera), narra alguns episódios muito importantes dessa história, inclusive a briga com João Gordo, que foi o estopim de uma inimizade que durou vários anos. O que eu estranhei um pouco foi a ausência quase total do ex-baterista Spaguetti no documentário. Como peça importante dessa rica história, gostaria de saber o por quê disso. Houve algum desentendimento entre o R.D.P. e ele?

Boka: Acho que não, pois ele deixou o R.D.P. por decisão própria. Ele concedeu a entrevista como todos os outros ex-integrantes, talvez ele seja uma pessoa mais reservada, mas não concordo que tenha pouco dele. Talvez da pessoa, mas não do momento que ele fez parte da banda, que é o mais clássico.

Música e Cinema: Em 2013 vocês foram homenageados em Ratomaniax: Tributo aos Ratos de Porão, um disco que contou com trinta e seis bandas, entre elas Korzus, Ação Direta, Claustrofobia, Força Macabra, entre muitos outros, fazendo releituras de vários clássicos de todas as fases da banda como uma justa homenagem a importância incontestável do Ratos para a cena underground. Como vocês se sentem sabendo da importância da banda pra toda uma cena? Na sua opinião, qual banda se saiu melhor e qual versão mais o agradou?

Boka: Gostei muito do Korzus e do Social Chaos, D.F.C., esse é o tipo de coisa que enaltece o que você faz. Um presente pra qualquer músico. Foi muito legal!

Música e CinemaBrasil (disco clássico da banda, lançado em 1989) é considerado por muitos, incluindo este que vos fala, o melhor disco da banda. Um verdadeiro apanhado dos maiores clássicos já compostos pelo grupo. Após 25 anos de seu lançamento, acha queSéculo Sinistro conseguirá pelo menos se equiparar a este grande clássico do Metal nacional e marcar época? 

Boka: Ele é diferente, mas também é um grande disco. Na minha opinião, talvez seja o melhor disco da banda depois do Brasil, que para mim também é o mais foda de todos.

Música e Cinema: Vocês têm já há alguns anos uma parceria com a Alternative Tentacles (gravadora do lendário vocalista do Dead Kennedys, Jello Biafra), que lançou no mercado americano alguns discos do Ratos. Esta parceria ainda está em vigor? O novo álbum vai ser lançado por ela nos E.U.A.?

Boka:Sim, a parceria continua e este será lançado via Alternative Tentacles também.

Música e Cinema: O Ratos de Porão sempre teve mais relevância no mercado externo do que em seu país natal. Em alguns lugares da Europa, a banda é reverenciada, mesmo cantando em português e narrando, fundamentalmente, problemas de nosso cotidiano. Porque você acha que isso ocorre? Porque o R.D.P. ainda não teve o devido reconhecimento aqui no Brasil?

Boka: Não concordo com isso. Acho que somos mais reconhecidos no Brasil do que fora daqui. O grande lance é que talvez o cenário europeu ou americano seja mais favorável para uma banda como nós, somente isso. Acho que somos muito reconhecidos e recompensados aqui com certeza.

Música e Cinema: Além de músico atuante na cena, você também comanda a Pecúlio Discos, lançando e comercializando discos de bandas de todos os cantos do mundo. Eu mesmo sou seu freguês assíduo (risos). É digno de admiração um selo independente, que trabalha com bandas de Punk, HC e Crossover basicamente, se manter no mercado por tantos anos. Infelizmente, nossa cultura não comporta isso, pois dá valor só para as músicas de massa, aqueles atentados musicais. Ao seu ver, como você analisa esse mercado? Existe real possibilidade de expansão para a música pesada?

Boka: Acredito que nossa realidade é essa; o estilo nunca vai se popularizar pelo simples fato de não ser um som nestes moldes. Talvez se eu fizesse este trabalho fora do Brasil poderia ter um selo bem maior ou não, ninguém sabe. Eu muitas vezes perco dinheiro com o selo, mas não me preocupo muito com isso. Sigo em frente, pois há altos e baixos como em qualquer outro trabalho.

Música e Cinema: Antes de ingressar no R.D.P., você foi integrante do Psychic Possessor (finada banda santista de HC/Crossover), onde lançou dois discos, sendo o último Nós Somos a América do Sul de 1989. Você tem idéia de reativar a banda e voltar a gravar material com eles? Além do Ratos, você tem algum projeto paralelo em atividade?

Boka: Recentemente, o vocalista Marcio Nhonho veio a falecer, fato este que nos chocou e nos entristeceu muito. Pensamos em regravar umas músicas de uma demo há um tempo atrás, mas não rolou. Hoje, o Zé Flavio mora na França e torna as coisas mais difíceis ainda. Talvez venhamos a gravar estes sons algum dia, mas nunca voltar como uma banda ativa.

Música e Cinema: Boka, pra encerrar nosso bate-papo, gostaria de saber quais seus discos preferidos de todos os tempos e qual foi o maior referencial pra você como músico?

Boka: Pergunta bem difícil! Acho que minha referência é de tudo que é barulhento da segunda metade dos anos 80. Este cenário me definiu como músico e  é responsável por grande parte de minha identidade, de minha visão de mundo, etc. Posso citar cinco discos e são eles:

Iron maiden – Piece of Mind

Motorhead –Iron Fist

Slayer – Reign in Blood

Minor threat – 1st two eps

Olho seco – Botas, Fuzis e Capacetes

Música e Cinema: Muito obrigado pela entrevista. Gostaria de deixar alguma mensagem aos fãs que esperam ansiosamente pelo novo disco? 

Boka: Obrigado pelo espaço e espero que tenham gostado da entrevista. Saudações a todos os rdpmaniax.

Contatos:

http://www.ratosdeporao.org

https://www.facebook.com/RatosdePoraoOficial?fref=ts

      

Sobre Ricardo Costa

Casado, 42 anos, médico veterinário. É fã de música desde a adolescência, principalmente dos subgêneros mais extremos do Metal. É fã também incondicional de cinema, principalmente de horror e ação. Seu principal hobby é pesquisar e conhecer bandas novas e filmes obscuros. Trará sempre novidades acerca de lançamentos, bem como artigos, matérias e entrevistas muito interessantes para os nossos leitores

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One comment

  1. Excelente entrevista! Muito bom ler uma entrevista quando o entrevistador entende mesmo do riscado.

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