Parasitas do Lodo: Tarantino, crítica social e dedicação ao underground

O cinema independente no Brasil é muito bem representado por vários cineastas de nobre talento. Com pouco dinheiro no bolso, mas grandes e inovadoras idéias na cabeça, esses verdadeiros “heróis do underground” realizam obras nas quais expressam seus sentimentos e seus pontos de vista acerca dos mais variados temas, seja políticos, sócio-culturais e até horror gore. Um dos precursores do cinema alternativo transgressor no Brasil foi José Mojica Marins – o Zé do Caixão -, que antes de obter o devido reconhecimento por sua obra no gênero do horror, chegou até a produzir e dirigir filmes de pornochanchada de baixíssimo orçamento.

Seguindo os passos do mestre (uns mais, outros menos), temos mais alguns representantes do estilo que vêm obtendo seu lugar ao sol nesse nicho que ainda engatinha em nosso país, entre eles Rodrigo Aragão, Peter Baiestorf, Fernando Rick e, este que conheci somente agora, mas que me surpreendeu muito positivamente com seu trabalho: Fernando Menegatti. É sobre ele e seu mais recente curta-metragem que discutiremos a seguir.

Cartaz de divulgação de "Parasitas do Lodo"
Cartaz de divulgação de “Parasitas do Lodo”

O jovem cineasta (e vocalista do Rotten Penetration nas horas vagas) de Bento Gonçalves/RS possui uma carreira ainda recente no meio, com uma filmografia composta por quatro curtas, incluindo Parasitas do Lodo. Esse seu mais recente trabalho tem como características principais a estética baseada nos road movies americanos (Grindhouse do Tarantino e Robert Rodriguez aparecem como grande influência), e a brutal crítica sócio-cultural, que mostra ao expectador o quão imundo pode ser o ser humano corrompido pela ganância.

O filme começa com o personagem Boris (vivido por Ismael Sebben) narrando, numa espécie de retrospectiva, a sua história e o seu trabalho escuso ao lado de De la Roque (Fábio Vergani), um marginal casca-grossa que é um híbrido de traficante, agiota e estelionatário. Completa o time de protagonistas (ou antagonistas, depende do ponto de vista) Bella (vivida por Maura Ambrosi), uma moça que vive um severo conflito interno, pois é namorada e apaixonada pelo bandidão, mas ao mesmo tempo vive se questionando sobre suas atitudes de moral duvidosa, num misto de amor e ódio coexistindo em seu pobre coração e consumindo sua alma (como é demonstrado na cena em que protagoniza um monólogo bastante esclarecedor e até com um tom poético). Boris demonstra muito ódio de De la Roque e tenta sair dessa vida bandida, orquestrando um plano para acabar de vez com o calhorda. Se ele vai conseguir? Assista e confira!

Em uma narrativa curta e grossa, repleta de linguagem obscena e cenas fortes, vemos esse “seleto” grupo praticando suas canalhices em um estabelecimento parecido com um ferro velho ou algo do gênero. Um lugar pérfido, sujo e intimidador, onde os meliantes não se furtam em trapacear e enganar nem um pobre velhinho surdo (esse que terá importância fundamental na conclusão da trama), e nem uma pobre moça grávida, que está disposta a ir para a cama com De la Roque só para conseguir algum dinheiro para quitar dívidas, enquanto o malvadão sacia seu desejo por jovens gestantes.

Equipe trabalhando nas filmagens.
Equipe trabalhando nas filmagens.

O diretor procura manter o tempo todo aquele clima de filme antigo, com aquela imagem amarelada, quase num tom sépia, numa clara referência ao já citado Quentin Tarantino. Outra característica marcante do curta é a forma como é exposta a história, misturando a realidade, ou seja, o presente, mas com interseções da ação no passado e até no futuro. Um pouco confuso, mas que casa perfeitamente com a proposta. Ao assistir o curta na íntegra, surgem alguns questionamentos bastante pertinentes: o que houve com a mulher grávida? Qual necessariamente era a atividade principal do bando? Paira uma certa dúvida no ar, mas é aí que reside o trunfo do trabalho. Nada é muito previsível, deixando o expectador ansioso pela próxima cena. Um filme sem planos mirabolantes, intervenções divinas ou efeitos especiais de ponta. É apenas um retrato fiel de como as pessoas são facilmente manipuláveis e capazes de tudo em troca de uns trocados a mais. A triste e patética realidade que assola não só o Brasil, mas praticamente todo o mundo.

Destaque para os atores que, apesar de pouco conhecidos, já demonstram bastante intimidade com o cinema. Produção e roteiro muito bem apresentados e um diretor que sabe exatamente o que está fazendo, sendo não somente um fã do gênero, mas também um realizador talentoso e que tem condição de alçar vôos bem mais altos. Um longa metragem já se faz necessário. Quem sabe isso não aconteça em breve?

O filme já se encontra em exibição no circuito alternativo no Sul do país. Não perca!

Contatos:

http://parasitasdolodo.blogspot.com.br/

https://www.facebook.com/fernando.andressa.90

Trailer de “Parasitas do Lodo”

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Sobre Ricardo Costa

Casado, 42 anos, médico veterinário. É fã de música desde a adolescência, principalmente dos subgêneros mais extremos do Metal. É fã também incondicional de cinema, principalmente de horror e ação. Seu principal hobby é pesquisar e conhecer bandas novas e filmes obscuros. Trará sempre novidades acerca de lançamentos, bem como artigos, matérias e entrevistas muito interessantes para os nossos leitores

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