Obituary: pintando a capital de sangue

O Obituary é velho conhecido aqui em nossas terras, já tocando por aqui várias vezes. Um dos maiores expoentes do autêntico Death Metal da Flórida e em atividade desde a década de 80, lançou em outubro do ano passado o seu mais recente registro. Intitulado Inked in Blood, o disco em questão chama a atenção por ser um verdadeiro resgate das origens do estilo, honrando a sonoridade, a atitude e o conceito daquilo que se convencionou chamar de “Metal da Morte”. Uma banda avessa a mudanças radicais e que optou por preservar o espírito das décadas passadas nesse novo álbum. Pra que mexer se já funciona tão bem, não é mesmo?

            Em atual turnê mundial, nosso querido Obituary resolveu nos agraciar com mais uma visita, se apresentando em várias cidades do Brasil, sempre trazendo ótimo público e shows impecáveis. Quer saber como foi aqui em SP? Confira agora no Música e Cinema.

Obituary – Clash Club/SP (04/04/15) * abertura: Test

Trevor Perez (esq.) e John Tardy (dir.). Uma aula de bom Death Metal.  * foto por Edi Fortini
Trevor Perez (esq.) e John Tardy (dir.). Uma aula de bom Death Metal.
* foto por Edi Fortini

Em sua mais recente turnê mundial divulgando seu último trabalho, o fabuloso Inked in Blood, o Obituary tocou em várias cidades do país e, obviamente, São Paulo não poderia ficar de fora dessa. No último dia 04 de abril, os pais do Death Metal americano levaram ao Clash Club uma grande quantidade de fãs sedentos por brutalidade personificada em música extrema da melhor qualidade.

            A abertura do evento ficou a cargo dos paulistanos do Test. A dupla formada por João Kombi (vocal/guitarra) e Thiago Barata (bateria) adquiriu notoriedade por praticar uma espécie de Grindcore/Death “jazzistico” violentíssimo, com muitas mudanças de andamento e incursões que fogem ao padrão do estilo, o que acaba contando pontos no quesito originalidade, e agradou o público que ainda estava chegando. É impressionante a energia emanada por esses dois sujeitos no palco. Em uma curta apresentação, que deve ter chegado a no máximo trinta minutos, tocaram músicas de seu debut, o insano Arabe Macabre. Apresentaram também som do Otomanos (split com o D.E.R.), e até uma nova canção tocada pela primeira vez ao vivo, que foi gravada para um split cd com uma banda belga, intitulada Fim do Mundo. Sinceramente, aqui um baixista não faz falta alguma, pois o peso e distorção da guitarra de João cobrem essa lacuna com sobras. Destaque também para a performance de Barata, que esmurra a bateria com uma vontade que vi poucas vezes na vida. Impressionante!

Test fazendo barulho! * foto por Edi Fortini
Test fazendo barulho!
* foto por Edi Fortini

            Após um breve intervalo, já com a casa praticamente cheia, os primeiros acordes de Redneck Stomp ecoam pelo recinto, deixando o público já ansioso pelo que ainda estaria por vir. Em meio à fumaça, já é possível ver o trio de frente formado por Trevor Perez (guitarra) e os “novos” integrantes: Terry Butler (baixo, ex-Death, ex-Massacre, ex-SFU) e Ken Andrews (guitarra). Essa nova formação é de um entrosamento ímpar, parecendo que já estão juntos há décadas. Sendo assim, já atacam com duas das novas composições na seqüência: Centuries of Lies e Visions in my Head, ambas demonstrando alto poder de destruição ao vivo. O público já estava em êxtase, com cada urro de John Tardy (vocal) socando o peito sem dó, aliás, é de se salientar que a voz de John continua com a mesma intensidade dos primórdios, se bobear até mais potente agora, sendo capaz de despertar até os mortos. Após o início apoteótico, é hora de celebrar a década de 90 e nada melhor que Infected, do clássico absoluto Cause of Death, para tal. O som estava bem alto, chegando a embolar em alguns momentos, mas nada que comprometesse o desempenho dos mestres. Apesar da pouca comunicação entre banda e público, era evidente a interação entre ambos. Mesmo após quase três décadas de carreira, o grupo ainda transborda energia como ninguém. Intoxicated nunca soou tão atual e devastadora, fazendo a platéia digladiar-se como se fosse o último minuto de suas miseráveis vidas. Por ser um álbum de fundamental importância na formação e consolidação de todo o estilo, ainda tivemos Bloodsoaked, Immortal Visions e ‘Til Death do aclamado Slowly We Rot a seguir, a fim de mostrar quem é que manda na coisa toda. A apresentação atingia seu clímax nesse momento, com a platéia em transe profundo, quando John anuncia Don’t Care. Considero o World Demise um dos melhores trabalhos do grupo, com sua forte crítica social focada na questão ambiental aliada a um instrumental soberbo, porém este é um álbum subestimado, tanto é que esta foi a única representante do disco em questão no set list. O refrão foi cantado com vigor pelos presentes, numa clara demonstração de que este trabalho tem lá seu valor.

Terry Butler mandando seu recado. * foto por Edi Fortini
Terry Butler mandando seu recado.
* foto por Edi Fortini

            Numa carreira repleta de clássicos e álbuns de grande impacto na história da música extrema, ainda tivemos uma demonstração de toda a importância do Obituary em mais algumas pancadas como Violence, Back to One e Back on Top. O novo álbum teve ótima aceitação, pois nas cinco faixas de Inked in Blood incluídas no set list da noite, o público participou efetivamente em todas. É como se fossem uma versão extrema do AC/DC ou do Ramones: a gente sempre sabe o que vai encontrar e sempre vai sair satisfeito. Neste momento, os músicos deixam o palco para a apreensão de todos. Será que já chegou ao fim? Não, meus queridos. Esse foi a hora de Donald Tard brilhar e mostrar todo seu talento num breve solo de bateria. Nunca fui muito fã desse momento nos shows. Sempre achei que ao invés disso poderiam incluir mais músicas, mas como o solo foi curto e direto ao ponto, foi bem bacana. Donald nunca foi o mais técnico dos bateristas do estilo, mas desempenha sua função com muita garra e intensidade, além de possuir uma timbragem inconfundível em seu instrumento, sendo um dos destaques na banda. Fim do solo, era hora de dar mais uma canja pro povo, afinal, o que eles haviam tocado até aquele momento só serviu pra atiçar as lombrigas do pessoal. Ainda havia muito sangue a ser derramado e ouvidos a serem triturados, e assim deram seqüência ao massacre com Inked in Blood com seu andamento mais cadenciado e pesado, fazendo tremer as paredes do local, sendo seguida quase que imediatamente por I’m in Pain, que a essa hora já causava um turbilhão de corpos voando no mosh pit. Infelizmente era chegado o momento da despedida, e pra encerrar o concerto nada mais apropriado que o maior clássico da carreira do grupo: Slowly We Rot. Jesus Cristo, que coisa linda! Naquele momento, eu poderia morrer realizado. Uma de minhas bandas favoritas de todos os tempos tocando esse verdadeiro hino da degradação humana a poucos metros de mim. Encerrou com chave de diamante. Ao término da apresentação, os músicos agradeceram efusivamente a todos os presentes, acenando, mandando beijos, jogando baquetas e palhetas, e se aproximando dos fãs para fotos e autógrafos. Um exemplo de profissionalismo e humildade.

Os mestres! * foto por Edi Fortini
Os mestres!
* foto por Edi Fortini

            Pois bem, qual o balanço disso tudo? Talvez o local escolhido para sediar o evento não foi dos mais acertados, mas também teve lá suas vantagens. Por ser um local pequeno (aprox. 800 pessoas), tornou a apresentação mais intimista, proporcionando um maior contato com o público. Creio que o Obituary funcione até melhor em lugares menores; um segundo aspecto importante é a proximidade do local com o terminal do metrô, favorecendo a volta pra casa de quem necessita de transporte público. Quanto ao som e iluminação do palco, que foram os dois aspectos mais sentidos pelos presentes, posso dizer que em alguns momentos incomodaram um pouco, mas nada que denegrisse a reputação da maior banda de Death Metal do mundo. Repertório repleto de clássicos; desempenho soberbo de todos os músicos; John Tardy urrando como um animal agonizante, e público correspondendo à altura. Precisa mais?

* Nossos sinceros agradecimentos a amiga Edi Fortini por ter cedido gentilmente as fotos que ilustram esse artigo.

* foto por Edi Fortini
* foto por Edi Fortini

Sobre Ricardo Costa

Casado, 42 anos, médico veterinário. É fã de música desde a adolescência, principalmente dos subgêneros mais extremos do Metal. É fã também incondicional de cinema, principalmente de horror e ação. Seu principal hobby é pesquisar e conhecer bandas novas e filmes obscuros. Trará sempre novidades acerca de lançamentos, bem como artigos, matérias e entrevistas muito interessantes para os nossos leitores

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