A Montanha dos Sete Abutres: Uma questão de ética!

A Montanha dos Sete Abutres é um filme clássico de drama de 1951. Foi dirigido por Billy Wilder e estrelado por Kirk Douglas. O longa é baseado em dois casos que aconteceram na vida real. Em 1925, W. Floyd Collins ficou preso no Sand Cave, em Kentucky, devido a um deslizamento de terra. O outro caso, foi de uma menina de três anos chamada Kathy Fiscus, que caiu em um poço abandonado em San Marino, Califórnia. As vítimas morreram antes de serem resgatadas. O filme é muito interessante pela abordagem em cima da ética dos profissionais jornalistas.

A Montanha dos Sete Abutres (Ace in the Hole) – 1951

Sinopse: O desmoronamento de uma caverna aprisiona um homem e todos voltam seus olhos para a tragédia… inclusive Charles “Chuck” Tatum (Kirk Douglas), um decadente repórter, que vê o incidente como um passaporte para o topo do jornalismo. Enquanto o circo da mídia começa a ser montado em torno da tragédia do homem soterrado, Tatum assume o comando da situação, amplificando o drama e prolongando o resgate, enquanto envia histórias aos inúmeros repórteres que querem cobrir o evento neste poderoso e envolvente estudo sobre o lado sombrio da alma humana.

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O que é ser jornalista? É levar a informação de modo fiel para o cidadão independentemente de sua ideologia, política da empresa à qual se trabalha, ou a fim de se promover ou favorecer alguém. Transmitir a notícia que é de direito do cidadão, algo relevante e de interesse público. Ser jornalista é contribuir para formação de opinião, difusão de ideias e conhecimentos. Mas para cumprir este papel sem ferir ou desonrar a profissão, deve-se seguir o código de ética jornalística. Segundo Cláudio Abramo (1923 – 1987), a ética jornalística é igual à ética de qualquer outro cidadão.

Mas será que é fácil seguir e respeitar este código, mesmo que sua situação seja uma das piores e que você precise de uma grande reportagem para manipular a fim de interesses e benefícios pessoais para poder chamá-la de notícia e voltar ao topo, ou melhor, chegar ao topo? Talvez essa pergunta não tenha resposta. Para refletir sobre isso, podemos seguir no encalço deste filme muito interessante.

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O longa narra a história de Charles “Chuck” Tatum, um repórter decadente que, a caminho de uma pauta para cobrir, desvia-se e se depara com um acidente onde um homem chamado Leo Minosa se encontra soterrado a cem metros dentro de uma caverna na montanha sagrada dos sete abutres. Manipulando a situação e ganhando a confiança de Leo, Chuck começa a narrar o acontecimento mandando anotações e artigos para o jornal onde trabalha. Mais tarde é despedido por desrespeitar a ética jornalística e manipular a situação. Quem pensa que Chuck iria cair, pensou errado. Vários veículos de comunicação começaram a se interessar por Chuck e pela notícia. O repórter ganhou o apoio do xerife local, que pensava em usar o caso para sua recandidatura e faz de todo o possível para atrasar o resgate de Minosa, pois a cada minuto que se passava mais artigos eram enviados com exclusividade por Chucky.

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Em pouco tempo, os arredores da montanha se transformaram em um grande carnaval devido ao sensacionalismo criado por Chuck. Segundo Abramo “o jornalismo é um meio de ganhar a vida, um trabalho como outro qualquer; é uma maneira de viver, não é uma cruzada. E por isso você faz um acordo consigo mesmo: o jornal não é seu, é do dono”. O repórter ignorou o que seu jornal mais respeitava, a verdade, conceito fundamental no código de ética. Ele também violou o art. 4º do código de ética dos jornalistas brasileiros, que diz:

– O compromisso fundamental do jornalista é com a verdade no relato dos fatos, deve pautar seu trabalho na precisa apuração dos acontecimentos e na sua correta divulgação.

E o art. 11:

II – de caráter mórbido, sensacionalista ou contrário aos valores humanos, especialmente em cobertura de crimes e acidentes;

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Ao menos 70% dos fatos relatados por Chuck não eram verídicos. Ele desrespeitou a vítima do acidente no momento em que se aproveitou daquela situação para criar um mito em torno daquele acidente. Também violou estes dois artigos quando atrasou e persuadiu o xerife e o engenheiro a dar rumo ao resgate de forma lenta, para assim poder cumprir o objetivo de manter a atenção da grande mídia em cima dos relatos de seus artigos para voltar ao status de grande repórter.

Mas não pense que só Chuck era vilão no filme. O xerife local sabia muito bem que não deveria ter cumprido as exigências de Chuck, assim como o engenheiro responsável pelo salvamento de Leo poderia ter resistido às influências do repórter. A esposa de Minosa, que não se preocupava se o marido iria sair vivo ou morto daquele lugar, apenas se contentou em faturar o dinheiro daquelas pessoas que ali se juntaram em um suposto “ato de solidariedade”. Podemos chegar à conclusão de que ninguém ali se respeitou ou respeitou ao próximo, e que as atitudes de todos não se encaixariam em qualquer princípio ético de qualquer profissão, e que a vida humana nada importava perto dos interesses pessoais de cada um.

Percebo que a atitude de Chuck no filme, levando em conta que ele é de 1951, é o retrato do que vivemos no jornalismo de hoje, onde muitos programas adotam o sensacionalismo, a fim de interesses políticos e econômicos ou apenas para manter a audiência no que o público acredita querer ver, transformando a notícia em uma simples mercadoria.

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A Montanha dos Sete Abutres não foi tão apreciado na época em que foi lançado, mas nos anos 2000, a crítica especializada passou a vê-lo com bons olhos por abordar um problema que vem se alastrando bastante ao passar do anos: O descumprimento dos principais valores éticos jornalísticos. No Rotten Tomatoes, o filme possui 89% de críticas positivas e 93% de audiência, ganhando a nota 8.1 do site.

Acesse o código de ética no site da FENAJ para mais informações.

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Elenco Principal A Montanha dos Sete Abutres

Kirk Douglas como Charles “Chuck” Tatum
Jan Sterling como Lorraine Minosa
Robert Arthur como Herbie Cook
Porter Hall como Jacob Q. Boot
Frank Cady como sr. Federber
Richard Benedict como Leo Minosa
Ray Teal como xerife
Lewis Martin como McCardle
John Berkes como pai Minosa
Frances Dominguez como mãe Minosa
Frank Jaquet como Sam Smollet
Harry Harvey como dr. Hilton
Geraldine Hall como Nellie Federber
Gene Evans como deputado

Ficha Técnica A Montanha dos Sete Abutres

Título Original: Ace in the Hole
Ano de lançamento: 1951
Gênero: Drama
País de origem: Estados Unidos
Duração aproximada: 111 minutos
Direção: Billy Wilder
Roteiro: Walter Newman / Lesser Samuels / Billy Wilder
Estúdio: Paramount
Distribuição no Brasil: Paramount
Orçamento: US$ 1.821.052 milhões
Bilheteria: US$ 1.300.000 milhões

Trailer de A Montanha dos Sete Abutres

 

Sobre Jackson Tavares

Admirador do cinema, aprecia todos os gêneros cinematográficos com objetivo de levar ao leitor o que há de melhor do assunto.

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