Metallica: revigorado e ainda relevante

Existem bandas que, ao anunciarem seus próximos lançamentos, promovem um verdadeiro fenômeno de histeria coletiva, uma autêntica comoção mundial. Em época de comunicação digital, as redes sociais entram em polvorosa. Os “críticos” de boteco começam a “formar opinião”, a expectativa chega a níveis alarmantes. Foi assim com o Guns N’ Roses e aquela bomba monstruosa do “Chinese Democracy”, e é assim com um sem número de bandas, incluindo o nosso querido Metallica.

“Hardwired…to Self-Destruct” foi alardeado já há algum tempo, abrindo espaço para todo tipo de cogitação: “um retorno às raízes do Thrash” (essa eu escuto desde o “Reload”), “o melhor disco da banda já criado”, etc, etc. Um conselho de veterano turrão: não caia nessa. Escute a todo e qualquer lançamento de sua banda preferida totalmente despido de idéias pré-concebidas e o negócio terá o verdadeiro impacto, a verdadeira essência. Pode acreditar. Pois bem, devo admitir que o Metallica não tem muita credibilidade comigo já há um bom tempo, porém, garanto que não virei com aquele argumento falido dizendo: “ahhh, mas o Metallica não é mais o mesmo”.

metallicaRealmente, essa é a indefectível realidade pra todo mundo. Os tempos são outros, as necessidades são outras e, porque não, o público também é outro. Claro que sinto falta dos tempos áureos, afinal, os caras pavimentaram a estrada do Thrash Bay Area. São os “síndicos” da coisa toda, e seria muito bom vê-los cuspindo fogo como nos primórdios, mas a evolução (ou involução?) é uma necessidade, e o Metallica cresceu como nenhuma outra banda do gênero jamais almejou. Creio que o principal problema vivido pelo grupo hoje em dia seja a massificação de sua música. Deixaram de ser restritos a um determinado público e expandiram seus horizontes, tornando-se uma banda das massas, do povão mesmo.

Bem, isso pode ser um problema para mim, fã meio radical das antigas, mas para o Metallica é a solução. O grupo atingiu um patamar tão elevado no qual já não deve satisfação a mais ninguém, e pode se dar ao luxo de lançar um disco a cada 10 anos sem se preocupar com repercussão ou nada do tipo, e se quiserem lançar um disco de dance music, ainda haverá público fiel para consumi-los.

Pois bem, deixemos a prolixidade preenchedora de lingüiças de lado e vamos direto aos fatos. “Hardwired…to Self-Destruct” é bom? Sim, nobre leitor, é muito bom, mas é como eu disse logo acima: esqueça o retorno às raízes, embora ainda encontremos, vez ou outra, resquícios dela. É um álbum maduro, bastante pesado, com um trabalho espetacular de guitarras e uma produção cristalina, bonita de se ver e, principalmente, de se ouvir. A cargo de Greg Fidelman, em parceria com Lars Ulrich e James Hetfield, é simplesmente a melhor qualidade sonora já experimentada em um disco do Metallica. Bob Rock, aprenda como de faz!

metallicaTudo muito na cara, sendo possível identificar com exatidão cada minúcia instrumental. Agora eu te pergunto: e aquela bateria toda? Confesso que me passou pela cabeça que nem seria um trabalho do Lars, mas sim de algum baterista de estúdio contratado. Mas eu sou um maldito mesmo, não? Virou moda falar mal do baixinho, coitado, mas é que sua performance em “Hardwired…to Self-Destruct” é tão correta, límpida e técnica, abusando das viradas, dos “blast beats” e da velocidade em alguns momentos, que cheguei a duvidar da veracidade de que seria, de fato, executada pelo patrão.

A banda utiliza da mesma métrica de sempre: composições longas e variadas, reunidas em um cd duplo, totalizando doze faixas em aproximadamente 1h e 15, ou seja, é uma overdose para os órfãos de tanto tempo. A faixa-título dá início ao trabalho e já é de cara uma das melhores do repertório: muito rápida, carregada de riffs acelerados de Kirk e James que, aliás, estão inspiradíssimos, embora meio tímidos nos solos, e repleta daquela bateria bonitona que me gerou aquela dúvida mencionada logo aí atrás. Refrão comandando a energia em meio à pancadaria. Excelente! “Atlas, Rise” já é um pouco mais cadenciada e variada, perdendo um pouco em “punch” em relação a anterior, e rendeu um clipe de divulgação bem descontraído recentemente.

“Now That We’re Dead” é uma de minhas preferidas, com uma pegada um pouco mais Rock ‘n’ Roll, que às vezes pende até para um Hard Rock mais encorpado. James muito à vontade te convida a cantar junto, e aquele maldito refrão grudou na cabeça e de lá não sai tão cedo.

Não me atrevo a descrever faixa a faixa, afinal, preciso deixar aquele gostinho do desconhecido para aguçar ainda mais a curiosidade dos fãs, mas em um álbum tão extenso e variado, naturalmente temos ainda muitos destaques, entre eles “Dream No More” (um tanto diferente para os padrãos “Metallisticos”, mas muito eficaz no contexto), “Here Comes Revenge” (uma das mais longas composições do álbum, e que lembra alguns bons momentos do “Death Magnetic), “Murder One” (uma justa e merecida homenagem ao pai de todos, Lemmy Killmister)  e “Spit Out The Bone” (essa, sim, disparada a melhor do disco, justamente por ser um elo de ligação do Metallica com seu passado Thrash Metal. Ecos de “Master of Puppets” se fazem presentes numa faixa de fazer cuspir o osso fora). Baladinhas? Não, obrigado! Ninguém precisa de uma “Unforgiven 385”.

Acredito que para um álbum tão aguardado, talvez tenha faltado um temperinho, mas é só implicância de fã velho e rabugento. No geral, o trabalho se sai muito bem e demonstra que, apesar de tudo, o Metallica ainda tem seu lugar cativo no Metal mundial. Só pra contextualizar, “Hardwired…to Self-Destruct” situa-se em algum lugar entre o “Black Album” e “Death Magnetic”, passando pra dar um alô em “Master of Puppets” e “And Justice for All”.

E já ia me esquecendo do Trujillo. Sempre achei ele muito apagado na banda, “sub-aproveitado” mesmo. Um músico com todo esse “know-how” relegado a um segundo plano, contudo, em “Hardwired…”, deixaram o cara brilhar, em linhas de baixo gordas, viçosas e extremamente competentes. Finalmente saiu da condição de “coadjuvante de luxo” para mostrar como se devora as quatro cordas com classe.

Há algum tempo atrás, em outro veículo especializado do qual faço parte, afirmei que seria pouco provável o Metallica conseguir bater de frente com os excelentes lançamentos de seus companheiros de Big 4. Sou homem o suficiente pra admitir que falhei miseravelmente no argumento precipitado. Concluindo: se você é fã, certamente continuará sendo; se não é, não será dessa vez que será convertido. Adquira o seu já.

ps.; Um clipe para cada faixa do repertório? E você achando muita extravagância do Guns ‘n’ Roses em lançar dois álbuns duplos simultaneamente. É o Metallica atingindo um novo grau de megalomania.

Nota: 8,5

Confira o track list:

Cd 1:

  • “Hardwired”
  • “Atlas, Rise!”
  • “Now That We’re Dead”
  • Moth Into Flame”
  • “Am I Savage”
  • “Halo On Fire”

 Cd 2:

  • “Confusion”
  • “Dream No More”
  • “Manunkind”
  • “Here Comes Revenge”
  • “Murder One”
  • “Spit Out The Bone”

Sobre Ricardo Costa

Casado, 42 anos, médico veterinário. É fã de música desde a adolescência, principalmente dos subgêneros mais extremos do Metal. É fã também incondicional de cinema, principalmente de horror e ação. Seu principal hobby é pesquisar e conhecer bandas novas e filmes obscuros. Trará sempre novidades acerca de lançamentos, bem como artigos, matérias e entrevistas muito interessantes para os nossos leitores

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