Korzus: trinta anos de comprometimento com o Metal

Com trinta anos de carreira, álbuns que são referências no estilo e músicos comprometidos com o Metal nacional, o Korzus chega em 2014 determinado a punir ouvidos sensíveis. Após um hiato de quatro anos, eis que o quinteto mais Thrash do país resolve mostrar quem é que manda nesse negócio. Com previsão de lançamento para o primeiro semestre de 2014, o novo álbum, intitulado Legion, é um dos discos mais aguardados pelos bangers brasileiros de todos os tempos. Atualmente, o grupo está em turnê de comemoração de três décadas de belíssimos serviços prestados ao som pesado nacional e mundial, apresentando na íntegra o mega clássico Mass Illusion em seus shows, destruindo tudo por onde passa.

Korzus (da esq. pra dir.): Heros Trench (guitarra), Antônio Araújo (guitarra), Pompeu (vocal), Dick Siebert (baixo) e Rodrigo Oliveira (bateria)
Korzus (da esq. pra dir.): Heros Trench (guitarra), Antônio Araújo (guitarra), Pompeu (vocal), Dick Siebert (baixo) e Rodrigo Oliveira (bateria)

            Pois bem, com tanta coisa acontecendo com a banda, nada mais justo do que batermos um papo com eles. Em uma chuvosa noite de quarta-feira, Rodrigo Oliveira (baterista da banda), gentilmente nos recebeu em sua casa para uma descontraída conversa. Sempre muito educado e solícito, Rodrigo falou sobre o disco novo, turnês, os grandes clássicos, suas principais influências, enfim, um belo resumo da carreira desta verdadeira instituição do Metal. Chega de conversa mole! Com vocês, o Slayer brasileiro: Korzus!

Entrevista com Rodrigo Oliveira (Korzus)

Música e Cinema: Boa noite, Rodrigo. Muito obrigado por nos ceder tão gentilmente esta entrevista.

Rodrigo Oliveira: Eu que agradeço a oportunidade.

Música e Cinema: Recentemente, o Korzus completou trinta anos de atividade. Para comemorar em alto estilo, a banda se apresentou no Clash Clud em São Paulo, tocando na íntegra o mega clássico Mass Illusion durante o set. Como foi a recepção do público ao espetáculo. É um momento muito importante para o Korzus, não?

 Rodrigo: Foi além do que esperávamos. Muitos amigos, muitos músicos de outras bandas e muitos fãs estavam presentes. Antes mesmo deste show, já estávamos tocando o Mass Illusion na íntegra nas outras apresentações da turnê, como em Manaus (AM), onde fizemos um set de duas horas. Foi sensacional. Indescritível!

Rodrigo conta muitas curiosidades sobre a carreira da banda.
Rodrigo conta muitas curiosidades sobre a carreira da banda.

 Música e Cinema: Por falar em Mass Illusion, vale salientar que este é definitivamente um dos maiores discos da história do Metal brasileiro. Um álbum que ajudou na formação de toda uma cena, servindo de inspiração e influência para a grande maioria das bandas do estilo. Um trabalho que, apesar de ter sido lançado há mais de vinte anos, ainda soa clássico e, ao mesmo tempo, atual. Como você define esse disco? Ele foi importante na sua formação musical?

Rodrigo: Totalmente! Minha formação é total Thrash Metal old school. O Betão Silecci (baterista da banda na época) foi uma grande influência pra mim. Na minha opinião, o Mass Illusion está entre os quatro álbuns mais importantes do Metal brasileiro, juntamente com o Brasil do R.D.P., o The Laws of Scourge do Sarcófago, e o Arise do Sepultura. Mesmo esses não sendo os meus preferidos, definitivamente, são os discos mais importantes da história do Metal nacional.  

 Música e Cinema: Recentemente, alguns dos mais importantes títulos da discografia da banda foram relançados pelo selo Voice Music (de propriedade de Silvio Golfetti, ex-guitarrista do Korzus), entre eles o Ties of Blood, K.Z.S. e o já citado clássico Mass Illusion. Estas versões saíram em belíssimos digipacks, com novo encarte, recheados de músicas bônus e contendo até vídeos. Além de ser um belo presente para todo headbanger que se preze, a iniciativa serviria também para incentivar o fã a adquirir o produto oficial, boicotando de certa forma o download ilegal de arquivos pela Internet?

Rodrigo: Veja bem, o verdadeiro fã vai comprar o produto oficial, independentemente de ele vir com algum bônus ou não. Depende muito da cultura. Eu, como vivo os dois lados da moeda – o de fã e o de artista -, sei o quanto é importante adquirir o produto original. A banda ganha e consegue se manter no mercado, podendo investir em mais trabalhos, e a gravadora também ganha, continuando seu trabalho no lançamento e promoção de novas bandas e discos. É uma questão de conscientização. Quem baixa ilegalmente, infelizmente, vai continuar baixando.

Arte da capa de "Mass Illusion", um dos álbuns mais importantes do Metal nacional!
Arte da capa de “Mass Illusion”, um dos álbuns mais importantes do Metal nacional!

Música e Cinema: Algum show da recente turnê de aniversário foi registrado para a gravação de um dvd comemorativo?

Rodrigo: Ainda não, mas temos a intenção de gravar algum show em breve. Só ainda não o fizemos porque coincidiu com a gravação do novo álbum, mas assim que estiver tudo pronto, faremos com certeza.

 Música e Cinema: O último álbum da banda é o Discipline of Hate, lançado em 2010. O novo disco está previsto para meados de 2014. Porque a demora neste processo?

 Rodrigo: O Korzus já tem o histórico de demorar um pouco mais que o normal entre um lançamento e outro. O que ocorre é que somos muito perfeccionistas neste aspecto e não lançamos nenhum álbum só por obrigação ou só pra preencher prateleiras de lojas. Queremos lançar um disco de qualidade, aquele que o fã ouve e já se identifica logo de cara. Se você for analisar bem, este foi um dos menores intervalos entre discos da nossa carreira. Só pra se ter uma idéia, entre o K.Z.S. e o Ties of Blood foram nove anos!

Música e Cinema: E por falar em Discipline of Hate, considero ele um dos melhores trabalhos da banda, talvez até o melhor. É o Thrash Metal expressado em sua melhor forma, furioso, pesado e técnico, contando com produção soberba e atuação impecável da banda. Seria o auge do Korzus?Como você considera o seu desempenho neste disco?

Rodrigo: Esse disco para mim e para a banda foi muito importante, mas também muito complicado, pois foi o primeiro trabalho após a saída do Silvio (Golfetti, ex-guitarrista), inclusive no disco existem duas composições assinadas por ele (Hell e Dark Soul). Por este motivo, para podermos superar o Ties of Blood e para suprir a saída do Silvio, tivemos que ralar muito. Ficamos muito satisfeitos com o resultado final e com a receptividade do público e mídia. Quanto a minha performance, posso afirmar que foi meu melhor desempenho até então. 

Música e Cinema: Não sei bem o por quê, mas só assisti ao vídeo de I’m Your God (faixa do álbum Discipline of Hate) recentemente e fiquei impressionado com o trabalho. Uma super produção mesmo! Contando com um tema bastante polêmico nos dias atuais, a violência doméstica, mostra um marido agressivo, que chega até a estuprar a própria esposa, sendo punido violentamente por ele mesmo, enquanto a banda toca como se fosse em outra sala, assistindo tudo por uma espécie de janela de vidro. Qual a metáfora escondida neste vídeo? Além de obviamente alertar sobre os danos e conseqüências do ato em si, qual a mensagem que a banda quis mostrar com este trabalho?

Rodrigo: Com este vídeo, o Korzus quis mostrar que se você comete algum erro, mais cedo ou mais tarde, será punido por sua própria consciência. Eu acho que a pior coisa do mundo é você se deitar, colocar a cabeça no travesseiro e não conseguir dormir, por causa de alguma falha ou erro cometido. Enfim, queríamos mostrar com este vídeo que o seu pior carrasco é a sua própria consciência.

Uma aula de Thrash Metal com "Discipline of Hate".
Uma aula de Thrash Metal com “Discipline of Hate”.

Música e Cinema: O primeiro full lenght da banda, o grande Sonho Maníaco, foi gravado totalmente em português. Além dele, temos outras composições lançadas no nosso idioma nos outros discos, porém apenas faixas isoladas. O Korzus tem a intenção de algum dia gravar outro álbum em português?   

Rodrigo: No momento, não temos essa intenção, mas sempre gravaremos alguma música em nosso idioma.

Música e Cinema: O álbum K.Z.S. é considerado o mais diferenciado da carreira da banda no quesito sonoridade. Lançado em 1995, é um disco de contraste em relação aos outros trabalhos, pois mostra uma banda querendo inovar dentro de seu próprio estilo, acrescentando fortes elementos de Metal tradicional e até de Hardcore americano. Apesar de ser um grande trabalho, ficou um tanto deslocado em relação aos demais. Apesar de você não estar na banda naquela época, qual a intenção da banda em lançar um álbum naqueles moldes? Talvez conquistar o mercado americano?

Rodrigo: Não penso que seja isso. Eu vejo que a cara da banda vem dos seus integrantes, e o Fernando Schaefer e o Marcelo “Soldado” Nejem (respectivamente ex-baterista e guitarrista do Korzus) tinham uma pegada mais hardcore. O Fernandão, na minha opinião, é um monstro sagrado do hardcore nacional. O Soldado tem uma das palhetadas mais nervosas e precisas do Brasil, e isso fez com que o Korzus soasse dessa forma no K.Z.S.; além disso, naquela época, tanto o Pompeu (vocalista), quanto o Silvio e o Dick (baixista) escutavam muito HC americano, como o Biohazard, Madball, Agnostic Front, entre outros, o que também acabou influenciando nesta mudança sonora. 

Música e Cinema: E quanto a um disco de covers? O Korzus tem a idéia de gravar versões em homenagem às suas principais influências?                                 

Rodrigo: Não devemos dizer nunca, mas também não está nos nossos planos no momento. Talvez gravar uma ou outra versão de alguma banda muito importante pra nós sim, mas um disco todo neste formato não está entre nossas prioridades.

Música e Cinema: Sobre o disco novo, o que podemos esperar da banda? O bom e velho Thrash Metal de sempre ou teremos algumas inovações?

 Rodrigo: O Korzus nunca se repete. Somos de essência Thrash Metal, porém nunca nos estagnamos ao estilo. O que posso te adiantar sobre o novo disco é que ele é uma evolução natural do Discipline of Hate. Aguardem!

Música e Cinema: A turnê de divulgação do novo trabalho tem início quando? Quais regiões serão abrangidas? Vocês também se apresentarão em algum festival de verão europeu, já que o Korzus tem ótimo público por lá?

 Rodrigo: A turnê propriamente dita começa no segundo semestre deste ano, abrangendo todo o Brasil e América Latina, e estamos em negociação para algumas datas na Europa, mas nada ainda definido.

*Obs.: Neste momento, Rodrigo coloca uma faixa nova, ainda sem título definido, para escutarmos. Provavelmente será a faixa inicial do trabalho e posso afirmar que o negócio está matador. Excelente!

Música e Cinema: Desde os primórdios, o Metal sofre discriminação. Somos marginalizados e desprezados pela grande mídia. Não há um canal especializado no estilo nas grandes emissoras e não existem emissoras de rádio que apóiam o gênero. Os poucos programas especializados no Metal ainda são muito segmentados e tendenciosos. Qual a sua opinião sobre este panorama? Há alguma forma de reverter, ou ao menos tentar reverter, este quadro? 

 Rodrigo: Eu não vejo como marginalizado, afinal os roqueiros de hoje em dia são uns verdadeiros bundões. Tem um monte de bandas por aí que se consideram Metal, mas falam de amor em suas músicas, mas não como os Beatles faziam. Fazem como os sertanejos; portanto, ninguém vai dar atenção para um estilo que a grande maioria das bandas atuais posam com tatuagem de coraçãozinho, usam cabelinho arrepiado com gel e fazem canções para suas namoradas que os chifraram voltarem. O verdadeiro marginalizado hoje é o funk, pois eles abordam, de uma forma burra, o que antes era abordado pelas bandas de rock de uma forma inteligente e com conteúdo. Para mim, falar de putaria e ostentação de forma inteligente era o que o Kiss fez em Lick it Up. Dessa forma, o funk tem espaço na mídia, pois o que interessa para a mídia é a polêmica, coisa que o rock em geral não tem há muito tempo.

Música e Cinema: Apesar da importância incontestável na cena da música pesada nacional, sinto que o Korzus ainda não atingiu o merecido e justo reconhecimento pelo conjunto de sua obra. A que você atribui isso? O que faltou para o Korzus atingir um patamar mais alto digno de sua importância no Metal?    

Rodrigo: O Korzus teve o seu mérito de acordo com o que buscou. Nunca tivemos a intenção de ser a maior banda do Brasil. O Sepultura, por exemplo, teve mais destaque que nós porque trabalhou forte pra isso, divulgou mais, investiu mais em turnês européias, americanas, tocou praticamente no mundo todo. Posso dizer que nós conseguimos tudo o que almejamos, mantendo um trabalho mais focado no mercado nacional.

Música e Cinema: Há algum tempo atrás, começou a surgir um verdadeiro revival do Thrash Metal, não só no país, como também em outras partes do mundo. Bandas como Violator (Bra), Bonded by Blood (E.U.A.), Suicidal Angels (Gre), Warbringer (E.U.A.), Municipal Waste (E.U.A.), entre outras, surgiram para prestar um verdadeiro tributo ao gênero. Uma autêntica celebração de retorno ao estilo. Qual a sua opinião sobre esse movimento? É algo verdadeiro e honesto, ou apenas modismo passageiro?

Rodrigo: Existem os dois lados da moeda: aquelas bandas que fazem por paixão, que vivem intensamente a cena, como o Violator e o Jack Devil, como existem aqueles que fazem mais por modismo, aproveitando a onda mesmo. Eu, particularmente, acho muito válido, pois quanto mais bandas de qualidade surgirem, maior será a divulgação do estilo, o que é muito benéfico para o fortalecimento da cena.

Música e Cinema: No ano passado vocês participaram de um tributo ao R.D.P., chamado Ratomaniax, onde o Korzus fez uma releitura sensacional de Anarkophobia. Sabendo da importância que o Ratos teve na fundação de toda uma cena, influenciando milhares de bandas nacionais e estrangeiras e permanecendo fortes até hoje, qual foi o sentimento em participar deste tributo? O R.D.P. é uma influência para o Korzus?

Rodrigo: Posso afirmar que foi uma das maiores honras que tive na vida. É uma das minhas maiores influências e foi muito importante na minha formação como músico. É com certeza também uma grande influência para o Korzus e deveria ser para todas as bandas que praticam som pesado no Brasil. São grandes amigos e tenho profundo carinho e respeito por todos eles.

Música e Cinema: Além de músico renomado, você também ministra aulas de bateria e ainda atua como produtor, trabalhando em um estúdio montado em sua própria casa. Como você faz pra administrar o tempo tão escasso em uma rotina tão atribulada?                                       

Rodrigo: Muito café, muito cigarro e poucas horas de sono por dia (risos). Para mim, o dia deveria ter no mínimo 66 horas para eu conseguir ao menos adiantar alguns projetos, embora outros ainda ficariam atrasados. Simplesmente amo o que faço e o dia que deixar de amar, abandono imediatamente.

Música e Cinema: Disco novo a caminho, nova turnê de divulgação, planos para um novo dvd e muito mais. Creio que 2014 será um ano intenso e de muitas conquistas para o Korzus. Quais as metas e objetivos para a banda neste ano que acaba de começar?

Rodrigo: Pretendemos tocar muito, levar nosso som para o maior público possível, divulgar ao máximo nosso trabalho. Como dito anteriormente, temos o projeto de gravar o dvd também, enfim, muita correria. Além disto, tenho planos concretos para o lançamento de um dvd em comemoração aos meus 20 anos como baterista profissional. Tem previsão de lançamento para outubro, que é o mês que completo os 20 anos de carreira.

Música e Cinema: Agora, como nosso bate papo está chegando ao fim, uma curiosidade de fã: quais os seus discos favoritos de todos os tempos?

Rodrigo: Difícil, hein? Mas vamos lá:

  • Altars of Madness (Morbid Angel)
  • Legion (Deicide)
  • Eternal (Malevolent Creation)
  • Heartwork (Carcass)
  • Hell Awaits (Slayer). Este foi o disco divisor de águas pra mim. Me tornei  headbanger por causa dele.
  • Black Force Domain (Krisiun)
  • Brasil (R.D.P.)
  • I.N.R.I. (Sarcófago)
  • Tomb of Mutilated (Cannibal Corpse)
  • Cause of Death (Obituary)

Música e Cinema: Rodrigo, muito obrigado por sua atenção e nos vemos por aí na nova turnê. Gostaria de deixar alguma mensagem aos nossos leitores?

Rodrigo: Agradeço ao site pela oportunidade, a todos os fãs e amigos. Espero que todos continuem ouvindo o bom e velho Metal! Vejo todos no moshpit. Grande abraço! 

Korzus e Música e Cinema: altos papos metálicos!
Korzus e Música e Cinema: altos papos metálicos!

Contatos:

http://www.korzus.com.br

https://www.facebook.com/korzus.brazil.3?fref=ts

Vídeo de I’m Your God

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Sobre Ricardo Costa

Casado, 42 anos, médico veterinário. É fã de música desde a adolescência, principalmente dos subgêneros mais extremos do Metal. É fã também incondicional de cinema, principalmente de horror e ação. Seu principal hobby é pesquisar e conhecer bandas novas e filmes obscuros. Trará sempre novidades acerca de lançamentos, bem como artigos, matérias e entrevistas muito interessantes para os nossos leitores

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