Jupiterian: mitologia, melancolia e muito peso

O Jupiterian ainda é uma banda muito jovem, mas já mostra a que veio com Archaic, ep lançado de forma independente e que impressiona pela intensidade e peso, isso porque o referido material contém apenas três faixas. O quarteto de São Paulo é adepto do peso monumental ao invés da velocidade desenfreada, e aqui isso funciona com perfeição. Ainda sem o suporte de uma gravadora, o Jupiterian segue seu caminho, batalhando duro para lançar o próximo material, que viria a ser o primeiro full lenght.

            Numa conversa muito descontraída, V (vocal e guitarra) nos conta tudo sobre a trajetória da banda, curiosidades, planos e metas dessa que é uma das boas revelações da música extrema dos últimos tempos. Guardem bem esse nome: Jupiterian!

Entrevista Jupiterian

Arte de uma suposta capa para o ep "Archaic"
Arte da capa do ep “Archaic”

Música e Cinema: A banda se chamava Codex Ivpter e, recentemente, foram renomeados de Jupiterian, inclusive soando até melhor que o anterior. O que ocorreu pra essa mudança repentina de nome?

V: Na real, a banda foi Codex Ivpiter por coisa de uns 3 meses só. Depois entramos no estúdio pra gravar e enrolamos outros 6 meses, mas nesse tempo a banda basicamente só ensaiou. Era mais o rascunho da idéia do que seria o Jupiterian. Foi como pegar o rascunho, amassar e começar de novo com a mesma idéia, mas por outro caminho. Mas isso foi bem no começo, quando gravamos e soltamos as músicas, já era Jupiterian e efetivamente a banda começou dali.

Música e Cinema: A sonoridade praticada pelo Jupiterian é algo assustador, pois além de agressiva é bastante densa e pesada. Certamente não é indicada para iniciantes (risos). A impressão que se dá é que vocês resolveram pegar tudo de pesado que encontraram pelo caminho e condensaram tudo no som da banda. Afinal, em termos de sonoridades e temáticas, o que teve influência primordial na concepção do som do Jupiterian?

V: Cara, minhas influências musicais vem de tudo que você possa imaginar. Nos últimos meses o que mais tenho ouvido é o Arvo Part, um compositor clássico e contemporâneo extremamente denso e sombrio. Quando resolvi colocar a banda junta e começar a ensaiar eu tinha em mente fazer uma mistura entre o death/doom metal da primeira leva, como o Winter, Disembolwelment, Anathema, My Dying Bride etc, que foi minha principal escola do estilo, com o funeral doom finlandês e muito do timbre de sludge. Aí soma tudo ao que os caras curtem e trazem de influência e a gente faz o que achamos que tem a ver com nosso som.

Música e Cinema: V, você vem de um background mais Death Metal, afinal você era vocalista da extinta banda The Black Coffins. Há alguma conexão entre seu antigo grupo e o Jupiterian?

V: Cara, é o Black Coffins foi a primeira banda que eu gravei e que as coisas aconteceram de fato. Tipo lançar CD, o vinil 7″ e tal, mas já tive banda de quase tudo que é gênero. Na década de 90 tive banda de splatter/gore, depois de death metal mais da escola Gotemburgo…, bandas de black metal, grindcore e por aí vai. Eu sempre fui muito ligado à musica e acho que tudo o que eu tive de experiência até hoje me levaram a conseguir executar minhas idéias no Jupiterian. Eu nunca me dediquei a estudar guitarra, na verdade eu não sei fazer nem uma escala pentatônica. Sei de cabeça uns quatro acordes e se me der um violão eu sei tocar três músicas do Misfits, duas do Ramones e meia dúzia de introduções de sons perdidos por aí. Sempre fui preguiçoso pra aprender guitarra, então tudo o que eu faço é no feeling literalmente. Se funciona, fico feliz e a gente segue com aquilo, se não funciona, jogamos fora e começamos do zero de novo. O Jupiterian não tem nenhuma ligação com o Black Coffins. Até o estilo de voz que eu fazia lá é completamente diferente aqui, são propostas diferentes na raiz.

Jupiterian
Jupiterian

Música e Cinema: Existem no Brasil várias bandas de Doom Metal, mas nenhuma se assemelha ao Jupiterian, pois vocês fundem à sua sonoridade algumas nuances Sludge e Ambient, tornando-os de certa forma bastante originais na cena. A presença de James Plotkin (famoso produtor americano – Old, Khanate, Scorn, Isis) na masterização do ep de estréia de alguma forma contribuiu para que a sonoridade tomasse esse rumo?

V: Não, de forma nenhuma. Tudo o que tínhamos pra fazer no processo de criação, composição, arranjos, gravação, mix e tudo mais já estava feito. A master é a última parte do processo. É o que faz o disco deixar de soar como um monte de pista separada sem muita unidade pra uma coisa mais nivelada e com isso tudo ganha mais corpo e volume. Não sei te explicar tecnicamente como é o processo, mas de forma geral, já tava tudo pronto com as atmosferas e tal, mas soando ainda como alguma coisa no rascunho. Quando foi pra ele, voltou mais foda do que mandamos. Como quando você mora com seus pais e a roupa que vai suja volta de forma mágica limpa e pronta pra usar. Master é isso (risos).

Música e Cinema: Archaic contém três longas canções repletas de peso, andamentos arrastados e climas sombrios e viajantes, contudo o trabalho ainda não foi apresentado no formato físico. Foi disponibilizado apenas para download no Bandcamp da banda. Você acha que esta está se tornando uma tendência entre as bandas iniciantes? O grupo disponibiliza o material para download gratuito e, de acordo com a procura, investe-se na produção do cd?

V: Não sei dizer, cara. Acho que é o processo natural. Você grava e precisa mostrar seu trabalho. Lá é um caminho. Se um selo se interessa, pode lançar independente de procura no bandcamp ou em qualquer lugar. É uma questão de alguém querer bancar aquilo e achar que vai ter retorno financeiro. Nossa função como banda é gravar o que e da forma que queremos, só isso.

Música e Cinema: Uma coisa é fato: é bem mais eficaz disponibilizar em um canal conhecido, onde o pessoal pode encontrar, ouvir e baixar, do que entregar de mão em mão como antigamente.

V: Eficaz por esse lado, mas por outro esse processo torna tudo mais raso. As pessoas não prestam mais atenção ao que estão ouvindo, não dão a atenção que as bandas deveriam e falo isso porque sou assim também. É o tempo todo chovendo bandcamp de bandas ótimas, mas que passam batido porque já tem mais uns trinta na fila que você quer ouvir. São os dois lados dessa moeda. Acho que quando a coisa era mais difícil, você dava valor a cada K7 que você conseguia, cada cópia tosca que você fazia na casa de um amigo que curtia som, desenhava o logo das bandas à mão na capa. Essa praticidade toda tirou esse apego que tínhamos com as bandas antigamente.

Música e Cinema: Tenho observado em vários sites e revistas especializados a boa repercussão que vem obtendo Archaic. Boas notas e resenhas em vários locais. Na sua opinião, para um trabalho de estréia, foram atingidas as expectativas da banda?

V: Pô, foi muito além do que poderíamos esperar. O ep tem só três músicas e rendeu resenhas quase que em toda Europa. Só na Holanda foram três em sites diferentes. Não tinha como ser melhor que isso, de mostrar nosso nome logo de cara e agora com o full length a caminho, poder deixar nossa base mais sólida.

Música e Cinema: E por falar em full lenght, existe alguma previsão de lançamento? Pode nos adiantar algo?

V: Estamos no meio do processo de gravação. Esse fim de semana vai rolar a gravação do baixo, mais o que falta de guitarra e provavelmente a voz. Não tem previsão de lançamento, o que posso adiantar é que está soando muito mais pesado, sujo e opressor que o Archaic, embora ainda com muito da melodia que tem ali. A capa está sendo feita pelo Manuel Tinnemans, ilustrador que já trampou com Deathspell Omega, Saturnalia Temple, Necros Cristos, etc.

Música e Cinema: Muito mais pesado que o Archaic? Como isso é possível (risos)? Aliás, como fazem pra obter esse timbre de guitarra tão fabulosamente sinistro?

V: É fácil, cara. Pega o pedal e bota molho de pimenta caseiro dentro da fiação. Não tem segredo.

Música e Cinema: Currents of Io (faixa que encerra Archaic) tem mais de 10 minutos de duração e uma grande variação de climas, associados com muita melodia, peso e um vocal pra lá de cavernoso, culminando numa viagem sonora digna de um Mastodon cruzado com Neurosis (risos). A respeito do curioso título, de que se trata essa faixa?

V: A música é sob o aspecto físico de Io, uma das quatro Luas de Júpiter descobertas por Galileu, junto com Ganimedes, Titã e Calisto. Io é quase o próprio inferno (no conceito do Dante Alighieri) de tantos vulcões ativos e em erupção quase o tempo todo, quase tudo que corre em fluxo por essa lua é lava. Io também faz parte da mitologia grega como sendo uma amante de Júpiter para os romanos, ou Zeus para os gregos. Currents of Io fala sob o primeiro ponto de vista.

Música e Cinema: Muito bacana, pois foge daqueles tópicos típicos de bandas Doom, que na sua grande maioria abordam temas como morte, sofrimento e melancolia, não acha?

V: Bom, a gente aborda isso também de certa forma, mas de uma maneira bem menos romântica que as bandas dos anos 90 abordavam. Eu gosto muito de literatura e o Jupiterian tem muito de Lovecraft nas letras e acho que o clima das músicas tenta recriar os mundos que ele imaginava. Pra música Archaic nós editamos um vídeo com trechos do On the Silver Globe do Andrzej Zulawski, que é sobre uma equipe de astronautas que pousa em um planeta com uma civilização primitiva. Eu curto demais isso. O The Time Machine (1960), uma adaptação do livro do HG Wells quando o cientista avança no tempo e encontra uma civilização que vive sob o sol, e os Morlocks do subterrâneo. Cultos a deuses antigos, povos e cultos extintos me fascinam e tento fazer com que esses temas estejam presentes de alguma forma em nossa música. Uma das músicas do disco novo chama-se Through the Crypts of the Elder Giants, e é uma referência direta a isso.

Música e Cinema: Creio que H.P. Lovecraft seja um dos maiores fornecedores de temas para o estilo. E casa perfeitamente com toda essa atmosfera maligna, não acha?

V: Sim, demais! Casamento perfeito, assim como o Poe (Edgar Allan Poe, famoso e cultuado autor de contos de terror e suspense) e o Tolkien (J.R.R. Tolkien, famoso escritor inglês, criador de O Senhor dos Anéis e O Hobbit). Tem muito escritor foda que eu consigo relacionar com nossa música e que ainda quero usar de alguma forma como referência no Jupiterian. Assim como muito filme de Sci-Fi e Horror até a década de 70 que também estão e estarão presentes na nossa temática.

Música e Cinema: V, creio que deva ser um trabalho bastante complicado criar arranjos e melodias, além das letras, para faixas tão longas. Como é feito esse trabalho na banda? Você é responsável por tudo isso?

V: Funciona meio assim: eu chego com um riff e em geral já penso como é a dobra dele, caso o riff peça que tenha isso em algum momento. As coisas vão se encaixando conforme a música vai acontecendo, um próximo riff depende do que o anterior pede, assim como o encaixe de voz. Quando penso em um riff já imagino como seria ele cantado. Por ter minhas limitações como guitarrista, tocar e cantar sempre foi muito complicado pra mim, mas tenho aprendido nesse último ano por conta da freqüência de ensaios e shows, então tento fazer de um jeito que seja possível pra mim. Algumas coisas são mudadas na hora da gravação. Foi criada de um jeito, mas no final gravado não fica bom e adaptamos de outra maneira. Isso aconteceu em duas músicas do disco novo agora nesse processo e ficaram infinitamente melhores. As letras eu acabo compondo porque já penso nelas encaixadas pra linha de voz que imaginei e que posso cantar.

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Música e Cinema: Com o primeiro full a caminho, obviamente os convites para shows devem estar aparecendo aos montes. Como está a agenda da banda? Uma turnê já está nos planos?

Vakka: Na real só tem um show marcado em abril. É um festival em SP, de resto não temos nada agendado.

Música e Cinema: Bom, nosso papo já está chegando ao fim, mas eu não poderia concluí-lo sem antes lhe perguntar: quais seus cinco filmes e cinco discos definitivos de todos os tempos?

V: Cara, esse lance de lista é sempre difícil. Eu te respondo agora e daqui cinco minutos mudaria tudo, então não posso te falar que são definitivos de todos os tempos, mas com certeza são discos que ouço há anos e sobrevivem ao tempo e sempre que eu boto vai rolar todo, não importa o humor. Cinco discos: Anathema – Pentecost III, Paradise Lost – Draconian Times, Misfits – Static Age, Beherit – Drawing Down the Moon e Demilich – Nespithe. Com os filmes é um caso mais sério. Eu vejo muito filme, inclusive tenho um blog sobre o tema, focado em filmes de terror, sci-fi e seus subgêneros, mas cara, meus filmes preferidos são os que passavam na Sessão da Tarde ou no Cinema em Casa quando era moleque. São filmes que já devo ter visto dezenas de vezes e sei que posso chegar a centenas facilmente sem enjoar. Melhor ainda se forem com a dublagem da época. Ps: Poderia colocar mais quarenta aí que estariam todos no mesmo nível desses cinco filmes: Guerra nas Estrelas, A Coisa, A Mosca, Enigma do Outro Mundo, Robocop e por aí vai…

Música e Cinema: V, muito obrigado por sua atenção. Gostaria de deixar alguma mensagem para os leitores do Música e Cinema?

Vakka: Valeu, Ricardo. Agradeço pelo interesse, apoio e espaço que nos cedeu aqui. Fumem crack, louvem satanás e ouçam Manowar.

Discografia:

 

  • Archaic (2014)

 

Formação:

 

  • V (vocal e guitarra)
  • A (guitarra)
  • R (baixo)
  • G (bateria)

 

Contatos:

https://www.facebook.com/jupiteriandoom?fref=ts

http://jupiterian.bandcamp.com/releases

 

 

Sobre Ricardo Costa

Casado, 42 anos, médico veterinário. É fã de música desde a adolescência, principalmente dos subgêneros mais extremos do Metal. É fã também incondicional de cinema, principalmente de horror e ação. Seu principal hobby é pesquisar e conhecer bandas novas e filmes obscuros. Trará sempre novidades acerca de lançamentos, bem como artigos, matérias e entrevistas muito interessantes para os nossos leitores

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