Gstruds: tiazona Thrash e seu legado.

Os cearenses do Gstruds já estão na luta há muitos anos – praticamente duas décadas – porém, somente no ano passado, lançaram seu debut. Com o curioso título de Only tia Gertrudes is Real e contando com um Thrash Metal visceral, bem executado e produzido, somado a letras de forte cunho político, social e cultural, mas com uma veia cômica latente, o quarteto formado por Carlos (baixo), Paulo (guitarra), Luiz (vocal) e Acácio (bateria) vem arrecadando cada vez mais fãs por onde passa. Trata-se de um trabalho altamente profissional, feito por músicos com conhecimento de causa e prontos para um maior reconhecimento na cena.

Gstruds
Gstruds

            O Música e Cinema, sempre na sua missão de divulgar e ajudar sempre as grandes bandas do nosso rico cenário underground, entrevistou com exclusividade o vocalista Luiz Lemos. Em um bate-papo muito descontraído, sempre muito atencioso e educado, nosso querido Luiz nos conta detalhes sobre o álbum de estréia, os planos para o futuro, os shows, turnês, enfim, um resumo geral da carreira dessa banda que promete apavorar a cena Thrash nacional.

            Tia Gertrudes chegou e muito sangue será derramado! Duvida? Então confira a seguir.

   Entrevista com Luiz (vocalista do Gstruds):

 Música e Cinema: O Gstruds é uma banda que já existe há muitos anos, porém só agora conseguiu lançar o primeiro disco. O que impossibilitou que o trabalho fosse lançado antes?

 Luiz: Bom, primeiramente quero em nome da Gstruds agradecer pela entrevista, Ricardo. É uma honra pra banda participar de uma no seu site, valeu mesmo a força. Voltando a sua pergunta, a Gstruds passou por mil e uma formações; eu saí logo no inicio e nisso a banda seguiu, gravou acho que duas demos e depois acabou. Oportunidades surgiram, mas perderam-se no tempo. Depois de um bom tempo, eu mesmo retorno com a banda pra resgatar alguns sons da primeira tape que participei e gravamos uma demo cd-r de nome Brutal comic Metal, que foi bem elogiada, apesar de ser uma gravação ao vivo; daí, novas amizades sólidas foram surgindo, apreciadores do nosso som e daí foi um pulo pra fecharmos parcerias para lançarmos, depois de muito tempo, o primeiro cd da banda, algo que nem com a formação original e no auge dela conseguiram.

Música e Cinema: O primeiro trabalho tem um título um tanto quanto curioso, Only tia Gertrudes is Real. E na capa do disco tem a mascote, que lembra muito o Ed de Killers. Afinal, quem é a tia Gertrudes? É uma homenagem a alguém?

Luiz: Bom, Gstruds é abreviado do nome Gertrudes que foi batizado a banda, pois tinha uma tia velha de um antigo membro com esse nome e era meio porra louca. Foi literalmente uma homenagem e daí ficou. Essa arte da capa foi criada por um amigo cartunista, o Tiago Amora, aqui de Fortaleza. Foi idéia minha, atiçado pelo titulo do CD e também porque sou muito fã do Maiden. Note também que tem menções ao Somewhere in Time, com os detalhes na contra capa. Veja no alto dos prédios que tem a silhueta da Barata Velma, entre outras coisas. Eu e o Tiago brincamos muito com isso e deu muito certo, ficou basicamente a essência da banda. Algo ácido e com muito humor negro.

Hilária arte da capa de "Only tia Gertruds is Real".
Hilária arte da capa de “Only tia Gertrudes is Real”.

Música e Cinema: Vocês praticam um Thrash Metal vigoroso calcado na veia oitentista do estilo, porém com letras repletas de humor ácido, criticando, de uma forma muito bem humorada, as modas, a política, problemas sócio-culturais, entre outros aspectos. Quais as principais influências da banda e qual o critério utilizado para elaborar letras tão inteligentes e engraçadas ao mesmo tempo?

Luiz: Bom, eu particularmente escuto de tudo que vem do som pesado, muito Death, Thrash e Grind. Sou muito fã de Kreator, Destruction, S.O.D., Headhunter Dc, Claustrofobia, Gangrena Gasosa, Unleashed, Necrophagia e por aí vai. O resto da banda é quase a mesma coisa e dessa sintonia que vai surgindo, tanto as musicas como as letras, vão se formando. Eu leio pra caramba, curto quadrinhos de horror, filmes de horror e ficção B, e quanto a questões sociais, nós moramos num país que nos dá muito pano pra manga pra isso e nessa salada toda surgem nossas composições, com uma dose de acidez e humor negro.

Música e Cinema: Luiz, sabemos o quanto é difícil para uma banda independente lançar um trabalho próprio aqui no Brasil; sabendo disso, gostaria de saber quais dificuldades a banda enfrentou até conseguir lançar o Only Tia Gertrudes is Real?

 Luiz: Cara, todas possíveis (risos), por isso a demora em lançar. Demoramos praticamente mais de dez anos pra soltar alguma coisa. Uma das principais dificuldades que encontramos foi solidificar a formação atual, porém, consegui grandes amizades que, coincidentemente, alguns tornaram-se selos underground. Fechamos um projeto mutirão com cinco selos: Esporro Sonoro (Alessandro Reinaldo), MVCS (Marcelo), Tenebrarum distro (Mario Carvalho), Metal Island (Nilberto Borges) e Gallery Productions (Emydio Filho). Sem eles, o projeto do nosso primeiro cd não teria saído, e por isso corremos atrás da produção do caralho pra dar esse retorno a eles e estamos bem felizes, pois foi uma parceria ótima para todos.

Música e Cinema: O álbum foi lançado recentemente e é pouco conhecido do público ainda. Como vocês trabalham com a divulgação do disco? Alguma turnê já está sendo planejada?

Luiz: Bom, estou dando meus pulos com relação à divulgação e uma delas é essa entrevista (risos). Corro atrás, estou jogando cds pra todo e qualquer canto; recentemente, na Roadie Crew de fevereiro, saiu a resenha do cd que foi só elogios. Achei do caralho e, por causa disso, na revista de março vai sair entrevista com a banda. Com relação a tour, todos da banda trabalham e tinha que ser alguma coisa pros finais de semana, esquema vai e volta. Estamos abertos a convites, por aqui estamos agendando alguns shows.

Música e Cinema: O Thrash Metal voltou a ser destaque nos últimos anos, com muitas bandas de todo o mundo lançando discos e fazendo shows. Esse “revival” foi importante para a banda? Como você vê o mercado para os grupos do estilo.

Luiz: O revival achei foda, até porque os novatos conhecem as lendas que estão voltando à ativa, criando novos álbuns, subindo nos palcos e mostrando seu som e provando que, mesmo de cabelos brancos, o som que fazem ainda é bem imitado pelos novos, e o mercado não está essas coisas, mas nos favorece. Temos o prazer de ver algumas dessas bandas ao vivo, coisa que na nossa época não conseguíamos, a exemplo do show do Benediction, ao qual fui recentemente aqui na expectativa de assistir a outras grandes bandas.

Gstruds (da esq. pra dir.): Carlos (baixo), Luiz (vocal), Paulo (guitarra) e Acácio (bateria). Tia Thrash!
Gstruds (da esq. pra dir.): Carlos (baixo), Luiz (vocal), Paulo (guitarra) e Acácio (bateria). Tia Thrash!

Música e Cinema: Como foi o processo de composição e gravação do álbum? Correu tudo como o planejado?

Luiz: Bom, quanto ao processo de composição do nosso álbum, foi de boa. Algumas letras eu até já tinha, porque na Gs (Gstruds) sempre estou escrevendo algo estranho pra jogar nas músicas, as melodias também participei nas idéias de solos, até porque queria tudo perfeito, porque era o nosso primeiro cd e tinha que sair impecável, e o que ajudou pra caramba foi o produtor que fomos presenteados: o André Noronha. Ele definiu a linha de gravação com a nossa cara, nos deixando livres para criar e foi dando mil e uma dicas e idéias, o que foi demais e deu no que deu. O cd com a nossa cara e personalidade.

Música e Cinema: Hoje em dia ocorre uma verdadeira banalização da música pesada. Grifes famosas lançando camisetas de bandas como Ramones, Sex Pistols, Metallica a preços populares e todas as patricinhas e moleques as usam sem nem ao menos saberem do que se trata. Usam somente por moda. No disco há uma música intitulada Retroboy. Por acaso essa canção é um manifesto contra esse “modismo”?

Luiz: Basicamente o que você comentou ai. A música Retroboy retrata bem isso, de como hoje também a internet ajuda pra caramba nisso. Hoje o cara conhece milhares de bandas ouvindo mp3 e já se acha um super critico de rock e rockeiro conceituado e sobre essas grifes. No meu tempo, ninguém andava lotado de patches pra ir a um show de rock, mas é isso aí, se estão felizes assim, Retroboy nelas (risos).

Música e Cinema: Em um país corrompido pelos “beijinhos no ombro” e outras atrocidades vistas como música, você acha que a música pesada em geral vai ter o merecido reconhecimento algum dia? Vai ter a repercussão que esperamos? Como você observa esse panorama?

Luiz: Bom, a música pesada tendo reconhecimento merecido é utopia, até porque vivemos num país que só faz apologia a som ruim, que eu particularmente nem considero ser música. O reconhecimento no Metal sempre será underground, para nosso nicho mesmo e para poucos, como foi o exemplo do Sepultura, que quando estava no auge jamais evidenciaram as outras bandas nacionais muito boas, então é complicado isso. Hoje vemos Krisiun detonando fora do Brasil, Hibria, ainda o Angra, mesmo em frangalhos, mas acho que sempre vai continuar nessa linha. Vivemos num país que literalmente defeca pra cultura em todos os sentidos e se não corrermos atrás sempre vamos ficar parados no limbo.

Música e Cinema: Músicas como Ataque das Borboletas Canibais e Velma, a Barata Zumbi são verdadeiros roteiros de filmes trash, podendo ser utilizados em filmes do Lloyd Kaufmann (dono da Troma, famosa produtora americana de filmes trash). As letras dessas músicas são baseadas somente nas produções B, filmes de horror e ficção de baixo orçamento, ou estão relacionadas a algum trauma com insetos (risos). Você é o principal compositor dessas pérolas?

Luiz: Sou sim e como você citou, minhas letras são baseadas em toda essa coisa que curto muito, como filmes B de horror e ficção, quadrinhos, roteiros de fanzines, revistas clássicas como Calafrio, Mundo do Terror, e toda e qualquer bizarrice gore ou humor negro que eu mexa me inspira a criar essas letras para o Gstruds (risos).

Música e Cinema: O Norte e Nordeste do país estão repletos de ótimas bandas no cenário da música extrema. Bandas como Facada, Expose Your Hate, Headhunter D.C., Siege of Hate, entre outras, acabaram de lançar novos álbuns e fazem sucesso no underground nacional, sendo muito reconhecidas e respeitadas no meio. A pergunta é: como é a cena underground em Fortaleza? Há bons lugares para apresentação? O Only tia Gertrudes is Real já está atraindo a atenção do público e promotores de eventos?

Luiz: Cara, a cena underground de Fortaleza é bem diversificada. Muitas bandas do caralho, como você acabou de citar. Infelizmente temos poucos espaços pra shows, mas desses poucos, acontecem muitos eventos bons, até com atrações gringas das mais diversas. Temos alguns promotores que investem nesses eventos com toda força pra não deixar a peteca cair. Com relação à promoção do nosso CD que foi lançado ano passado, estamos divulgando bem por aqui; tem tido uma boa saída, tanto na capital como no interior. Já estou agendando alguns shows novamente, mas minha luta é para tocar mais fora.

Luiz botando suas magoas pra fora!
Luiz botando suas magoas pra fora!

Música e Cinema: Falando novamente em turnê, poderemos ver o Gstruds aqui em SP? E um vídeo clipe? Pretendem lançar algum para ajudar na divulgação do trabalho?   

Luiz: Cara, na real isso é o maior desejo da banda, tocar por aí no Sul, mas apesar do nosso CD estar pipocando por aí, ainda nada de convites e estamos abertos a isso. Com certeza tocar por ai é nosso maior desejo, e com relação ao clipe, é meu outro sonho, mas vai demorar um pouco, pois a minha idéia é fazer algo em animação, saca? Até porque nossas músicas puxam muito pra essa dinâmica. Já tenho vários roteiros aqui esperando, só falta um bom designer. Se alguém se interessar é só me procurar que a gente conversa.

Música e Cinema: Seu timbre de voz é bastante gutural, sendo mais comum em bandas de Death Metal. Você utiliza algum efeito na gravação das vozes ou é só poder na garganta mesmo?

Luiz: Bom, meu timbre de voz sempre puxou pro lado gutural porque essa é a minha linha, mais Death metal. Muitas influências na cabeça! Uma delas é o Sergio Ballof (Headhunter D.C.), John Tardy (Obituary), e por aí vai. E vai só na garganta mesmo, não uso nadinha, me adeqüei a isso.

Música e Cinema: O álbum foi lançado em cooperativa com cinco selos independentes. Esse é um meio muito comum entre as bandas underground para lançarem seus materiais. A finalidade disso é baratear os custos de gravação e divulgação, oferecendo aos fãs um produto mais em conta, facilitando a aquisição do material oficial?

Luiz: Na realidade, essa proposta de lançamento do álbum por cinco selos foi, sim, baratear os custos pra todos os participantes e também obter uma maior divulgação e distribuição do material, e na possibilidade de entregarmos algo de qualidade na mão da galera, tanto sonora como esteticamente falando.

 Música e Cinema: Sabemos que é impossível sobreviver de música aqui no Brasil, principalmente neste estilo. Os integrantes têm que se matar em estúdio, lutar pra divulgar seu trabalho, tocar em condições precárias e ainda trabalhar o dia inteiro em alguma outra atividade para poder sobreviver. Sabendo disso, gostaria de saber quais as atividades de vocês paralelamente à banda? Como é o convívio entre vocês?

Luiz: Bom, eu sou Professor de história e, às vezes, de Geografia (risos). O guitarrista é farmacêutico e tem sua própria farmácia, é um micro empresário; o baterista trabalha com monitoramento de vans e o baixista trabalha com vendas. Nosso convívio é bem equilibrado e de boa. Eu, claro, dou as ordens (risos) e eles cumprem. Brincadeiras à parte, hoje a formação atual da banda é uma família e bem democrática nesse sentido, mas o grosso de divulgação, merchandise e contatos é comigo mesmo.

Música e Cinema: Luiz, infelizmente nosso papo chegou ao fim. Gostaria de agradecer do fundo do coração a sua atenção e desejar a você e a banda todo o sucesso do mundo, e espero em breve vê-los ao vivo aqui em SP. Gostaria de deixar algum recado aos nossos leitores?

Luiz: Ricardo, eu – em nome da tia velha Gstruds – que agradeço pela entrevista. Foi muito massa e é uma honra em participar do site Música e Cinema e dizer para os seus leitores que a velha Gstruds está sedenta, esperando convites pra tocar aí na área. É só entrar na nossa fanpage ou Facebook que entramos em contato para adquirirem material da banda e etc. Agradeço mais uma vez a participação no blog e desejo a todos Brutal na velha sempre!

Contatos:

http://musicaecinema.com/gstruds-tiazona-thrash-e-seu-legado/

br.myspace.com/gstrudsbanda

[email protected]

Sobre Ricardo Costa

Casado, 42 anos, médico veterinário. É fã de música desde a adolescência, principalmente dos subgêneros mais extremos do Metal. É fã também incondicional de cinema, principalmente de horror e ação. Seu principal hobby é pesquisar e conhecer bandas novas e filmes obscuros. Trará sempre novidades acerca de lançamentos, bem como artigos, matérias e entrevistas muito interessantes para os nossos leitores

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