Entrevista exclusiva com o diretor Rodrigo Aragão

O cinema de horror no Brasil ainda é um gênero muito desvalorizado, infelizmente. Cineastas com talento ímpar têm o seu trabalho ofuscado pelas comédias “padrão Globo” e os filmes policiais que relatam a rotina nas comunidades carentes. O gênero, que teve como seu patrono aqui no país o lendário José Mogica Marins, ou Zé do Caixão para os íntimos, começa a dar sinal de vida com a dedicação e esforço de um pessoal que, movido pela paixão e diversão, vem realizando um trabalho digno dos maiores elogios, e dentre esses realizadores desta arte tão polêmica e controversa, destaca-se Rodrigo Aragão.

Hideo Nakata e Rodrigo Aragão no 'Mórbido Fest' em Patzcuaro - México
Hideo Nakata e Rodrigo Aragão no ‘Mórbido Fest’ em Patzcuaro – México

Esse jovem cineasta de Guarapari/ES, com vasta experiência em efeitos visuais, decidiu se aventurar pelos caminhos da sétima arte e vem demonstrando muito talento em sua empreitada. Com uma filmografia ainda pequena (três longas, sendo eles Mangue Negro, A Noite do Chupacabras e, o mais recente, Mar negro), Rodrigo tenta reverter este panorama, apresentando um produto de uma qualidade técnica raras vezes visto por aqui. Um trabalho que não fica devendo em nada aos grandes clássicos do gênero mundial, demonstrando grande conhecimento de causa no assunto. Sendo assim, nada mais natural do que batermos um papo com o próprio.

O chumbo come solto na zumbizada em 'Mar Negro'
O chumbo come solto na zumbizada em ‘Mar Negro’

Sempre muito atencioso e educado, Rodrigo nos atendeu para uma breve conversa por telefone, onde nos deu mais detalhes sobre seu último lançamento, além de algumas outras curiosidades. Com vocês para o Música e Cinema, o melhor aluno de Peter Jackson e Sam Raimi: Rodrigo Aragão! Confira!

Entrevista: Rodrigo Aragão

Música e Cinema: Bom dia, Rodrigo. Obrigado por nos conceder a entrevista.

Rodrigo Aragão: O prazer é todo meu.

Música e Cinema: Você é a maior revelação do cinema de horror nacional dos últimos tempos, sendo até comparado ao mestre José Mojica Marins, o Zé do Caixão. Como vem sendo a repercussão ao seu trabalho? Como é ser cineasta no Brasil, principalmente de um gênero tão controverso quanto o horror?

Rodrigo Aragão: Eu acho que ser cineasta de horror no Brasil é muito difícil. É impressionante como em um país com um folclore e uma cultura tão ricas seja tão difícil fazer cinema de gênero. Espero até que eu seja um dos primeiros a tentar mudar esse panorama. Como o mercado ainda é escasso e o incentivo é pequeno, a gente vai tentando abrir o caminho no peito mesmo. E obrigado pela comparação. Mojica é um mestre!

Música e Cinema: Seu último trabalho foi o longa Mar Negro, que vem sendo bastante elogiado, não só aqui, mas também no exterior. Ele atingiu as suas expectativas? Como foi a recepção do público a este trabalho?

Rodrigo Aragão: A recepção do público é sempre maravilhosa. Eu faço cinema para as pessoas se divertirem! Quem não gosta, já sai da sala nos primeiros 15 minutos; quem gosta, geralmente aplaude. Não existe meio termo. No geral, a recepção tem sido muito boa! O Brasil é repleto de fãs ardorosos do cinema de horror, aquele pessoal que ama mesmo. O país ainda é órfão de cineastas do estilo. Mojica foi um caso em especial.

 

Música e Cinema: Recentemente você foi homenageado e premiado em um grande festival de cinema no México. Conte-nos como foi essa experiência.

Rodrigo Aragão: Sim, exatamente. Foi lindo! Foi no Mórbido Festival, realizado na cidade de Patzcuaro, no México. É maravilhoso ver um país como aquele, que tem uma cultura de terror muito viva, o “Dia dos Mortos” e tal, e ter apoio do governo do estado, tendo como expectador o próprio governador; além disso, tive o prazer de conhecer gente do quilate de Hideo Nakata (cineasta japonês diretor de grandes sucessos do horror mundial, como Água Negra, Ringu, O Chamado 2, entre outros) e ser elogiado por ele; Bruce Spaulding Fuller (famoso técnico de efeitos especiais, responsável pelos efeitos de Army of Dakness, O Labirinto do Fauno, Hellboy, Terminator 2, entre outros), após a projeção de Mar Negro, aplaudiu de pé! Isso não tem preço! Também conheci e até tirei foto com o Frodo (Elijah Wood). Foi fabuloso! Uma experiência única!

Rodrigo encontra Frodo....ops, Elijah Wood no 'Mórbido Fest'
Rodrigo encontra Frodo….ops, Elijah Wood no ‘Mórbido Fest’

Música e Cinema: Seus filmes são bastante violentos, mas também tem uma veia cômica latente, como os primeiros trabalhos de Peter Jackson e Sam Raimi. Eles são uma influência pra você? Aliás, quais são suas principais influências como diretor?

Rodrigo Aragão: Sam Raimi e Peter Jackson são os meus heróis. Assim como eles, eu procuro fazer um filme com uma pegada mais crua, com efeitos especiais e maquiagem, com o mínimo de efeitos digitais, bem exagerado. Hoje em dia os cineastas pecam pelo excesso do digital, e você sabe que sangue digital não suja, não é mesmo? (risos). Eu procuro fazer um trabalho original, com toques da rica cultura brasileira.

Música e Cinema: Além da direção, você também é o responsável pelos efeitos especiais e pela maquiagem dos seus filmes. É um trabalho árduo, mas muito bem feito. Como você consegue conciliar todas essas funções ao mesmo tempo?

Rodrigo Aragão: Quando trabalhamos com baixo orçamento, acaba sendo natural a gente se desdobrar, executar mais de uma função. Eu comecei a trabalhar com maquiagem desde a infância. Me lembro que eu era garoto e já fazia ferimentos e cicatrizes com o material que eu tinha disponível; sendo assim, eu acabei me acostumando. Tenho uma equipe que me ajuda muito. Como o Brasil não tem mercado pra isso, comecei fazendo meus próprios filmes para poder explorar as minhas técnicas de maquiagem e efeitos. Tenho também uma oficina de efeitos especiais e maquiagem, onde ministro cursos para ensinar as pessoas que tem interesse em seguir nessa área.

Música e Cinema: A caracterização dos personagens em seus filmes é excepcional, bem como a confecção das criaturas. No trabalho mais recente nós temos o “Baiacu Sereia”, que é um híbrido de homem e peixe, responsável pela epidemia zumbi que assola a cidade. De onde surgiu a idéia para a caracterização do monstro?

Rodrigo Aragão: Bem, eu moro numa aldeia de pescadores. Cresci pescando e vendo animais estranhos de todos os tipos, peixes e outras criaturas esquisitas. Quando criança, pegava caranguejo no mangue; sendo assim, nada mais natural que criar um monstro com características do peixe, associados às características da sereia, que é uma lenda muito conhecida aqui na região. Eu quis criar um monstro mais orgânico, bem feio mesmo. E quando ele é capturado, ele já está na forma de zumbi, pronto para morder e infectar todo mundo.

Poster de 'Mangue Negro', primeiro longa de Rodrigo Aragão
Poster de ‘Mangue Negro’, primeiro longa de Rodrigo Aragão

Música e Cinema: Seus filmes anteriores, Mangue Negro e A Noite do Chupacabras, foram lançados para o mercado de vídeo pela sua produtora, a Fábulas Negras, sendo muito bem recebidos. O Mar Negro será lançado em dvd também? Terá exibição no circuito comercial de cinemas?

Rodrigo Aragão: O Mar Negro vai estrear no circuito de cinemas, sim, embora seja difícil no grande circuito, mas espero que ele seja exibido pelo menos nas grandes capitais do país. Eu estava em negociação para a exibição do filme no maior número de salas possíveis, para que o maior número de pessoas tivessem acesso a ele. No A Noite do Chupacabras eu negociei com vinte e duas distribuidoras e ninguém se interessou. Espero que desta vez seja diferente, porém, se não der certo desta forma, ele vai ser lançado direto para o mercado de vídeo, em mais um lançamento da Fábulas Negras.

Cartaz do filme 'A Noite do Chupacabras'
Cartaz do filme ‘A Noite do Chupacabras’

Música e Cinema: Peter Baiestorf, outro ícone do cinema independente de horror, vem participando de seus filmes como ator, desempenhando um excelente trabalho. Como foi trabalhar com ele?

Rodrigo Aragão: Foi muito legal. Tentamos fazer do cinema independente uma arte coletiva, onde nos ajudamos e cooperamos uns com os outros. Sou muito feliz em poder trabalhar em conjunto com outros cineastas. O Peter se mostrou um excelente profissional. Ele tem aquele jeito meio doido dele, mas é uma pessoa maravilhosa! Serviu também como troca de experiências. Em todos os meus filmes sempre trabalhei em colaboração com outros realizadores. Como o mercado não nos valoriza, nós mesmos temos que nos valorizar.

Música e Cinema: Em seus filmes, além de toda a violência e nudez que já é o esperado, você costuma focar também o problema da pobreza que assola a população brasileira. Seria uma forma de crítica social também?

Rodrigo Aragão: A crítica social já está no contexto. Eu cresci em um lugar muito pobre, vivenciando todas as amarguras que a população sofre. Foi um processo natural. Além disso, nos filmes, dou muita importância também pra questão ambiental. Antigamente, eu podia nadar no mangue sem problemas, porém hoje em dia é impossível. O lugar vem sendo destruído. Procuro divertir com os meus filmes, mas também alertar e conscientizar o público sobre esses problemas tão sérios.

Charme e sedução no poster de 'Mar Negro'
Charme e sedução no poster de ‘Mar Negro’

Música e Cinema: E quais os planos para o futuro? Pretende produzir algo fora do horror gore, ou vai se aprimorar cada vez mais e se tornar uma referência mundial no gênero?

Rodrigo Aragão: Todos os meus filmes são deste universo e quero que este universo continue crescendo cada vez mais, seja em filmes, seriados ou até quadrinhos. Esta é minha meta. Não tenho interesse em criar algo fora do gênero. Estou com três projetos ao mesmo tempo:  um longa chamado Alerta: recanto de cadáveres, que é em colaboração com seis países latinos; tenho também um projeto de um curta-metragem, intitulado Fábulas Negras, dividido em 3 contos, sendo um deles dirigido por mim, outro pelo Peter Baiestorf e o último pelo Joel Caetano. Vai sair como um filme, mas pode se tornar uma série. Por fim, já estou com um roteiro pronto para um próximo filme, que vou tentar mais uma vez um investidor para colocá-lo em prática.

Música e Cinema: Agora uma curiosidade: Quais os seus filmes favoritos?

Rodrigo Aragão: Cara, os meus preferidos de sempre são: A Volta dos Mortos Vivos, Evil Dead, Fome Animal, Enigma de Outro Mundo, os grandes clássicos do gênero. Também não posso deixar de mencionar o grande Á meia-noite Levarei sua Alma, primeiro filme do Zé do Caixão, onde ele demonstra que é possível, sim, realizar cinema de horror de qualidade no Brasil.

Música e Cinema: E como horror e Metal caminham de mãos dadas, gostaria de saber quais as suas bandas favoritas?

Rodrigo Aragão: Sepultura, Korn, Marilyn Manson, mas o que me fez iniciar na música e curtir som mesmo foi o Raul Seixas. Ela era muito original, passeava por muitos estilos diferentes e sempre com muito talento. É um marco brasileiro.

Música e Cinema: Bem, Rodrigo, chegamos ao final do nosso papo. Gostaria de agradecer imensamente a sua colaboração e atenção para conosco. Muito obrigado! Alguma consideração final para os nossos leitores?

Rodrigo Aragão: Eu que agradeço a oportunidade. Grande abraço a todos!

Contato:

Contatos:

Perfil oficial do Facebook 
Fábulas Negras Produções

 

Sobre Ricardo Costa

Casado, 42 anos, médico veterinário. É fã de música desde a adolescência, principalmente dos subgêneros mais extremos do Metal. É fã também incondicional de cinema, principalmente de horror e ação. Seu principal hobby é pesquisar e conhecer bandas novas e filmes obscuros. Trará sempre novidades acerca de lançamentos, bem como artigos, matérias e entrevistas muito interessantes para os nossos leitores

Veja Também!

Danilo Gentili, Carlos Villagrán e Fabrícrio Bittar

Filme: Danilo Gentili fala sobre produção, Carlos Villagrán e trilha sonora

Lançado em 2009, o livro “Como Se Tornar o Pior Aluno da Escola” ganhará sua …

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *